ARTIGO | Político Copa do Mundo. Misteriosamente, todos descobriram onde fica o Cariri


Por Inácio Feitosa*

Sete e meia da manhã. O vídeo me chegou como chegam as coisas importantes hoje: sem aviso, no meio de outras cem. Era Asley Ravel falando. Em Monteiro ninguém precisa de sobrenome: é Karabina.

Sentado na frente de uma casa velha, janela de madeira, parede que perdeu a conta das mãos de tinta. Barba grande, óculos redondos, camisa da NBA. Um sertanejo de camisa de basquete americano falando de política numa calçada de Monteiro. Se isso não é o Brasil, eu não sei o que é. O perfil dele avisa: “Perfil pessoal!”. Não é comitê, não é assessoria. Ele segue quase tanta gente quanto o segue. Karabina não fala para o povo. Fala com o povo.

E disse o que todos perceberam e ninguém teve coragem de dizer em voz alta: misteriosamente, nesse período eleitoral, todos os candidatos da Paraíba descobriram onde fica o Cariri. E encerrou: “Você já viu isso? Será que é mistério?”. Cento e quarenta e duas curtidas, sem impulsionamento e sem marqueteiro.

Não é, Karabina. Não é mistério. É calendário. O GPS deles atualiza de quatro em quatro anos. O mapa carrega e vem o espanto ensaiado: que região linda, que povo trabalhador, que sol! O sol está aqui o ano inteiro. Só que em ano ímpar ninguém acha bonito.

E sejamos precisos: não descobriram o Cariri, descobriram o eleitorado do Cariri. Descobriram onde fica. Falta descobrir como é.

Veio tudo junto: a dancinha para o story, a moto abrindo a carreata, a bandeirinha de cem reais, o jingle que não diz nada, a festinha, a poeira. Tem candidato que aprendeu a comer buchada este mês. Tem quem posou no açude e foi embora antes de perguntar quanta água ele tem.

Sem perceber, mudamos a régua. Político bom virou o que paga a carreata, não o que entende de água, de adutora, de cisterna, de dessalinizador quebrado há três anos. Contratamos animador de festa e cobramos resultado de gestor. Depois estranhamos o resultado.

Só que o semiárido não é animado. É duro, técnico, de prazo longo. Adulto que nunca terminou o ensino médio, jovem que se forma e vai embora, água que chega ou não chega. Nada disso rende vídeo de quinze segundos. Talvez seja exatamente esse o problema.

Foi ouvindo Karabina que me veio o nome dessa figura: político Copa do Mundo. Só aparece de quatro em quatro anos, convoca a torcida, promete o título, canta o hino com a mão no peito e some no dia seguinte à final. Na Copa de verdade a gente pelo menos assiste aos jogos. Aqui a torcida paga o ingresso, empresta o muro e nunca vê o time entrar em campo.

E quem lê isto de longe não ache graça do sertão. Tire a poeira e ponha asfalto, troque o carro de som pelo outdoor e o forró pelo telão. O personagem é o mesmo no Recife, em São Paulo, em Minas, no Sul e no Norte. Muda o sotaque, muda o preço do brinde. O roteiro é idêntico, e ele existe porque funciona.

Enquanto a régua for a carreata, teremos carreata. No dia em que o eleitor perguntar, olho no olho, o que aquele candidato fez pela região nos últimos três anos e meio, e não nos últimos três meses, o roteiro muda.

Obrigado, Karabina. Você não fez um vídeo político, fez um vídeo de gente. Mistério não existe. A pergunta é outra, e é para quem está lendo: será que você ainda se engana?

*Inácio Feitosa é advogado, mestre em Educação pela UFPE e autor de seis livros. Filho e neto de monteirenses, divide a vida entre o Recife e Monteiro. Foi Secretário de Educação Profissional e Juventude do Recife e diretor do Senai-PE. Preside o Instituto IDR, que mantém a EJA Nacional em Monteiro, na Praça da Saudade.

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