Sócia-fundadora de escritório feminino e cotada para vaga no Quinto Constitucional do TJPE, jurista defende a regularização dos riscos psicossociais nas empresas

A advogada, professora e mestre Dra. Isabela Lessa foi a convidada do episódio nº 56 do programa Causos & Causas, veiculado pela ELLO TV na quinta-feira (14). Em entrevista conduzida pelo jornalista André Luis, em São José do Egito, no Sertão do Pajeú, a jurista abordou a intersecção entre o Direito das Famílias e a saúde mental do trabalhador, detalhou os impactos da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR1) no ambiente corporativo e comentou sobre a lembrança de seu nome para disputar uma vaga de desembargadora pelo Quinto Constitucional no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) em 2026.
Mãe de dois filhos e diretora-geral licenciada da Escola Superior da Advocacia (ESA-PE), ela defendeu que as empresas precisam humanizar as planilhas e enxergar a maternidade como uma incubadora de habilidades de gestão.
Maternidade real e o desenvolvimento de habilidades de gestão
A entrevista teve início com uma reflexão sobre o artigo semanal publicado pela advogada na Folha de Pernambuco, cujo título defende que “a vida não interrompe a competência”. Ao descrever a rotina familiar ao lado do marido, que é procurador municipal, e dos dois filhos atletas, Isabela classificou o cotidiano como um “caos delicioso”, onde o apoio mútuo permite o desenvolvimento das potencialidades individuais.
A advogada criticou a visão ultrapassada do mercado que enxerga as demandas familiares como um entrave à produtividade. Para ela, as exigências da maternidade funcionam como um treinamento prático para competências comportamentais (soft skills) altamente valorizadas no mundo corporativo.
- Gestão de matriz de urgência: A necessidade diária de triar o que é prioritário (como medicar um filho doente) e o que é importante (organizar o material escolar) treina a capacidade de tomada de decisão sob pressão.
- Fim da procrastinação: A profissional revelou que se tornou mais ágil e focada após a maternidade, devido à necessidade de cumprir agendas milimetricamente calculadas.
- Gestão de projetos e liderança: A coordenação da logística familiar desenvolve a capacidade de gerenciar fluxos de trabalho e delegar funções.
Como exemplo de cultura acolhedora, ela citou o arranjo feito em sua própria residência para que sua funcionária doméstica possa acompanhar o filho autista nas terapias semanais. “Ela passou a ter uma relação conosco totalmente diferente, porque é uma relação em que ela pode ser mãe. Ela não precisa deixar de ser mãe para trabalhar, nem deixar de trabalhar para ser mãe”, sublinhou.
Nova NR1 e a punição a empresas por riscos psicossociais
Especialista em conformidade corporativa (compliance), a Dra. Isabela Lessa emitiu um alerta contundente sobre a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR1) do Ministério do Trabalho. Após um adiamento estratégico para a publicação de cartilhas explicativas, a fiscalização passa a exigir que as empresas mapeiem os riscos psicossociais do ambiente organizacional, sob pena de multas severas.
A advogada desfez um mito comum ao esclarecer que a legislação não obriga a contratação de psicólogos clínicos pelas empresas, mas sim uma reformulação na organização do trabalho.
- O que adoece o trabalhador: Práticas de assédio moral ou sexual, fofocas humilhantes, metas abusivas, jornadas exaustivas e a falta do direito à desconexão (cobranças em grupos de mensagens fora do expediente).
- O papel da previsibilidade: Ambientes com regras transparentes (saber a quem relatar uma falta ou atraso) geram segurança jurídica e bem-estar, reduzindo os índices de absenteísmo (faltas) motivados por transtornos de ansiedade, depressão e burnout.
- Análise do FAP: O Ministério do Trabalho passará a monitorar os atestados médicos (focando nos CID de saúde mental) e o Fator Acidentário de Prevenção (FAP) para identificar ambientes corporativos tóxicos.
Gestão feminina na advocacia e o “branding” do cuidado
Fundadora do escritório Bahia Lins & Lessa Sociedade de Advogadas, que atualmente conta com uma equipe de 14 mulheres, Isabela relatou como a transição para um ambiente majoritariamente feminino transformou a cultura da empresa. A desconstrução de antigas caixas organizacionais refletiu-se até na identidade visual da firma, que trocou tons neutros pelo marsala e retirou o logotipo de uma moldura fechada.
A banca transformou a sensibilidade e o acolhimento em um diferencial de mercado, oferecendo aos clientes corporativos e de direito de família um “cuidado jurídico estratégico”. O ambiente seguro permite que colaboradoras compartilhem problemas de saúde ou demandas dos filhos sem o receio de retaliações ou julgamentos técnicos.
Quinto Constitucional: A voz da advocacia de balcão no TJPE
Com 20 anos de carreira jurídica focada no direito das famílias e no balcão dos fóruns, Isabela Lessa confirmou a postulação de seu nome para a disputa da vaga destinada à advocacia no Tribunal de Justiça de Pernambuco pelo dispositivo do Quinto Constitucional.
A professora defendeu três pilares fundamentais que legitimam sua pré-candidatura ao cargo de desembargadora:
- Militância real (advocacia raiz): Vivência direta com as dores dos jurisdicionados — como mães aguardando pensões alimentícias ou mulheres invisibilizadas após anos fora do mercado de trabalho — garantindo um olhar empático que dialogue com a realidade da profissão na ponta.
- Histórico de voluntariado institucional: Atuação contínua na OAB-PE nos últimos dez anos, tendo exercido cargos como diretora da ESA-PE, presidente da Comissão da Mulher Advogada e, atualmente, liderando o comitê de representatividade.
- Aprimoramento técnico e docência: Como professora de Processo Civil, defendeu a necessidade de o tribunal aplicar de forma rigorosa as regras processuais vigentes, como os critérios de fixação de honorários advocatícios previstos no Código de Processo Civil (CPC).
“O Quinto Constitucional é um espaço de oxigenação. A maioria das vagas é composta por magistrados de carreira. Levar alguém que traga na pele as marcas do advogar militante e que tenha compromisso com o coletivo humaniza o tribunal”, defendeu a jurista.
Ao encerar a participação com o tradicional quadro “Ping-Pong”, a advogada declarou seu amor pela cultura nordestina ao eleger o forró de Flávio José como seu ritmo de calmaria, o café como ferramenta de resolução e definiu a si mesma como uma guerreira acolhedora, que se guia pela máxima de Cora Coralina: “Tudo que merece ser feito, merece ser bem feito”.


