Advogado criminalista alerta sobre riscos da omissão de clientes e da pressão por respostas rápidas na Justiça
Em entrevista ao podcast Causos & Causas, Dr. Inan Kaleu discute os desafios do sistema penal no interior, a seletividade do judiciário e casos em que inocentes podem ser condenados por investigações precipitadas.
Em um bate-papo revelador no podcast Causos & Causas da ELLO TV, o advogado criminalista Inan Kaleu, presidente da Comissão de Direito Penal da OAB em Afogados da Ingazeira e sócio fundador do KMC Centro Jurídico, expôs as nuances e desafios da prática do direito penal no sertão pernambucano. Durante a entrevista, ele abordou desde o estigma de ser “defensor de bandidos” até casos concretos em que a pressão por uma resposta rápida do Estado pode levar à condenação de inocentes.
O Perigo da omissão do cliente
Um dos pontos altos da entrevista foi o alerta do Dr. Inan sobre como a omissão de informações por parte do cliente pode prejudicar gravemente sua defesa. “Quando a gente é pego de surpresa com uma prova nova que o cliente demonstrou mentir, isso pode comprometer toda a estratégia defensiva”, explicou o advogado.
Ele detalhou que, em alguns casos, o que inicialmente parecia um caminho para a absolvição termina em uma sentença condenatória porque o advogado foi surpreendido por informações que o cliente omitiu. “E aí vem como se o advogado tivesse feito um trabalho de péssima qualidade ou que a culpa é do advogado. Quem tá de dentro é que conhece a realidade do sistema judiciário”, ressaltou, comentando que é comum clientes ou familiares questionarem “quais as chances reais de soltar?” como se o trabalho jurídico fosse baseado em porcentagens e não na análise minuciosa dos autos.
Seletividade do sistema e desafios do interior
Questionado sobre a seletividade do sistema penal brasileiro, Dr. Inan foi categórico ao afirmar que o interior sofre com a falta de estrutura. “Às vezes tem cidades que não têm fórum, não têm comarca. O judiciário, às vezes, não tem a quantidade [de servidores] para suprir aquela necessidade”, afirmou.
Ele contrastou a realidade do sertão com a da capital, onde o acesso à Justiça é mais fácil devido à localização e à infraestrutura. No entanto, fez uma ressalva sobre cidades-polo como Afogados da Ingazeira, que, por sediarem um batalhão da PM, veem a criminalidade “um pouco mais reduzida” devido à presença mais ativa do Estado.
Mídia, reconhecimento fotográfico e o risco do erro
O advogado também falou sobre a influência da mídia nos julgamentos, que ele considera uma interferência real e perigosa. “Infelizmente existe aquela mídia condenatória que às vezes chega já imputando determinada condenação pré-processual a determinado indivíduo”, alertou, lembrando do emblemático Caso Escola Base de 1994.
Sobre os métodos de investigação, Dr. Inan expressou cautela com a prática do reconhecimento fotográfico, especialmente quando a polícia utiliza catálogos com fotos de pessoas, majoritariamente negras, que nunca cometeram crimes. “A pessoa pode ter uma falsa percepção da realidade… e tá imputando ali erroneamente aquela pessoa”, explicou.
Ele citou um caso de sua própria experiência em que a polícia, ao investigar um suposto homicídio, colou no processo uma foto do Facebook do irmão do investigado – que fazia um curso de vigilância – como se ele “gostasse de utilizar arma de fogo”. “Eram parecidos, mas literalmente mudava a questão do cabelo e até a cor da pele”, contou, ilustrando como uma investigação com “falhinhas” pode distorcer completamente os fatos.
O Verdadeiro papel do advogado criminalista
Ao ser questionado sobre o preconceito de ser visto como “defensor de bandido”, Dr. Inan foi enfático: “O advogado criminal não defende bandido, ele defende direitos”. Ele explicou que o papel do defensor é garantir o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, buscando a justiça, e não a vingança. “Se tiver de ser condenado, vai ser. Se tiver de ser absolvido, também vai ser”, completou.
Mensagem para as novas gerações
Como ex-professor universitário, o Dr. Inan deixou um conselho para os jovens aspirantes a advogados: “Acreditar em si mesmo é o principal ponto”. Ele encorajou os estudantes a persistirem diante dos obstáculos. “Muitas pessoas vão dizer que você não vai conseguir… mas quando você tem esse objetivo traçado, naturalmente esses obstáculos vão ser apenas desafios durante a caminhada”.
A entrevista completa com o Dr. Inan Kaleu está disponível abaixo, ou no canal da ELLO TV no YouTube no episódio #32 do podcast “Causos & Causas”.



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