Júri é cancelado após defesa questionar sanidade mental de acusado de crime brutal em Paulista
Réu confessou autoria de homicídio qualificado, estupro, ocultação de cadáver e vilipêndio contra vítima vulnerável; nova data de julgamento depende de laudo psiquiátrico
O julgamento de Antônio Vitor Alves da Silva, acusado de cometer um dos crimes mais chocantes da recente história do Grande Recife, foi abruptamente interrompido na manhã desta segunda-feira (18) na 1ª Vara Criminal de Paulista. No momento inicial da sessão do júri popular, a defesa do réu requereu a instauração de um incidente de sanidade mental, questionando sua capacidade de entendimento no momento dos fatos. O pedido foi acatado pelo juiz Thiago Cintra, que cancelou a sessão e determinou a nova diligência.
O processo em questão (nº 0000052-87.2023.8.17.3090) apura crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, vilipêndio a cadáver e estupro contra Josenilda Lins Ezequial da Silva. O crime ocorreu na madrugada de 24 de dezembro de 2022, em um terreno baldio na Rua 145, no bairro de Jardim Paulista Alto.
De acordo com a denúncia do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), o corpo da vítima foi encontrado decapitado e sem as mãos. Durante a instrução processual, o réu confessou a autoria dos crimes. Não havia qualquer relação prévia entre ele e Josenilda.
Decisão judicial e próximos passos
Com a concordância da assistência de acusação, representada pelo advogado Weryd Simões, o juiz determinou a suspensão do processo penal principal até a conclusão do incidente de sanidade mental. Antônio Vitor será submetido a uma avaliação psiquiátrica realizada por peritos oficiais do estado, vinculados ao Instituto Médico Legal (IML) e ao Instituto de Criminalística.
Caso o laudo ateste doença mental à época do crime, o réu será considerado inimputável. O processo penal será extinto e ele receberá uma medida de segurança, devendo ser internado em manicômio judiciário. Se for considerado são, o júri popular será reagendado.
Em entrevista à TV Guararapes, o assistente de acusação, Weryd Simões, explicou a base legal do pedido. “O Código de Processo Penal diz que a qualquer tempo pode ser requerido o incidente de insanidade mental. Por mais que retarde o resultado final do julgamento, é importante que se tenha as garantias que a lei prevê”.
Investigações revelam crueldade e aleatoriedade do crime
Em suas declarações, Weryd Simões detalhou o trabalho de investigação da Polícia Civil, classificado por ele como “brilhante”. Através de mais de 90 horas de gravação de câmeras de segurança de empresas, residências e órgãos oficiais, foi possível reconstituir minuciosamente os passos da vítima e do acusado.
As imagens mostram que, naquela madrugada, Antônio Vitor perambulou pelas ruas por horas, com uma faca na mão e sob efeito de entorpecentes, perseguindo mulheres. “Além da vítima fatal que foi assassinada naquela manhã, três outras mulheres foram perseguidas por ele com faca na mão”, revelou o assistente de acusação.
Ele narrou um caso específico em que o acusado desistiu de abordar uma possível vítima apenas porque uma viatura policial apareceu no local. “Certamente qualquer outra mulher que cruzasse o caminho daquele assassino podia ter sido vitimada”.
Réu confessou, mas apresentou versão “mentirosa”
Weryd Simões afirmou que o réu confessou os crimes em todos os momentos: na delegacia, na audiência de custódia e no plenário do júri. No entanto, a acusação rejeita veementemente a motivação apresentada por ele.
“Ele traz uma versão mentirosa de que teria reconhecido a vítima de um abuso que ele teria sofrido na infância”, disse Simões. Segundo essa versão, Josenilda teria trabalhado como babá em sua residência e abusado dele. “Isso é uma inverdade. Ela passou a vida inteira trabalhando de carteira assinada numa escola renomada na cidade de Olinda”.
O assistente de acusação destacou a incoerência da tese. “Como é que ele teria sido abusado como criança e reconhece essa vítima 15 anos depois?”.
Vítima enfrentava problemas de saúde
A reportagem apurou que Josenilda Lins Ezequial da Silva enfrentava sérios problemas de memória e era acompanhada por um psiquiatra. Seu esposo, em depoimento, disse que ela frequentemente manifestava a intenção de “encontrar a mãe”, já falecida há anos.
“Nesse dia, infelizmente, ela foge durante a noite”, explicou Weryd Simões. As câmeras mostram o momento em que a vítima, vulnerável e desorientada, cruza com o acusado e chega a pedir ajuda a ele para descer uma rua. Em seguida, ele comete o crime.
Agora, a conclusão do caso e a possibilidade de um julgamento pelo Tribunal do Júri dependem de um laudo médico. A sociedade aguarda para saber se o autor confesso de uma barbárie será julgado por um colegiado de cidadãos ou se será direcionado para tratamento psiquiátrico compulsório.



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