MPPE converte investigação sobre suposta “rachadinha” em inquérito civil contra vereador de São Lourenço da Mata
Procedimento passa a apurar formalmente acusações de repasse de salários de servidores do gabinete de Luciano Brito da Silva, o “Gordo de Lages”
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) converteu um Procedimento Preparatório em Inquérito Civil nº 02198.000.301/2024 para aprofundar a investigação sobre a suposta prática de “rachadinha” no gabinete do vereador Luciano Brito da Silva, conhecido como “Gordo de Lages”, na Câmara de São Lourenço da Mata.
A decisão foi tomada pela Promotora de Justiça Isabelle Barreto de Almeida em 12 de março de 2026.
Do procedimento preparatório ao inquérito civil
Motivo da conversão
O MPPE registra que o prazo legal de tramitação do Procedimento Preparatório foi esgotado, mas ainda há necessidade de continuidade das investigações.
Com isso, a promotora fundamenta a conversão em Inquérito Civil, nos termos do art. 32, parágrafo único, da Resolução CSMP/PE nº 003/2019, para permitir uma apuração mais completa e formal dos fatos.
Origem da denúncia
A representação que deu origem ao caso:
- chegou ao MPPE a partir de declínio de atribuição do Ministério Público Federal
- é identificada como Notícia de Fato PR-PE-00061695/2023
Segundo essa representação, haveria exigência de repasse de parte dos vencimentos de servidores comissionados lotados no gabinete do vereador Luciano Brito da Silva, prática conhecida popularmente como “rachadinha”.
O que está sendo investigado
Suposta “rachadinha” no gabinete de Luciano Brito
A portaria descreve que a investigação tem foco na Câmara de Vereadores de São Lourenço da Mata, especificamente:
- servidores comissionados do gabinete do vereador Luciano Brito da Silva (“Gordo de Lages”)
- suspeita de que parte dos salários seria exigida de volta, em benefício do agente político
Em termos simples, o MPPE apura se funcionários nomeados para cargos de confiança eram obrigados a devolver parte do que recebiam.
Possível improbidade administrativa
O Ministério Público ressalta que, se comprovadas, as condutas:
- configuram grave ofensa aos princípios da administração pública
- podem caracterizar atos de improbidade administrativa com enriquecimento ilícito, nos termos do art. 9º, caput, da Lei Federal nº 8.429/1992, já com as alterações da Lei nº 14.230/2021
Na prática, isso significa que o caso pode resultar em ação de improbidade, com possíveis consequências como:
- perda da função pública
- ressarcimento ao erário
- pagamento de multa civil
- proibição de contratar com o poder público (a depender da configuração jurídica que vier a ser adotada)
Medidas determinadas pelo Ministério Público
Manutenção do sigilo do denunciante
A promotora determina que seja mantido o sigilo dos dados qualificativos do noticiante, atendendo pedido feito na denúncia.
Isso busca proteger a identidade de quem relatou os fatos, para evitar retaliações ou constrangimentos.
Comunicação interna e publicação oficial
A portaria ordena o envio de cópia do ato:
- ao CAO/PPTS (Centro de Apoio Operacional)
- à Corregedoria-Geral do Ministério Público (CGMP)
- ao Conselho Superior do MP (CSMP)
- à Subprocuradoria-Geral em Assuntos Administrativos, para que seja feita a publicação no Diário Oficial Eletrônico do MPPE
Esses trâmites garantem o controle interno e a publicidade institucional do inquérito.
Diligências para coleta de provas
Oitiva de ex-servidor comissionado
Uma das primeiras medidas é a realização de audiência com um ex-servidor do gabinete:
- será designada, com urgência, audiência com o Sr. Josenildo José da Silva
- ele deverá prestar declarações detalhadas sobre:
- o período em que atuou como comissionado no gabinete do vereador
- os valores de seus vencimentos
- eventual exigência de repasse de parte do salário (“rachadinha”)
Na prática, o MPPE quer ouvir diretamente quem trabalhou no gabinete e supostamente foi afetado.
Notificação do vereador investigado
O MPPE também determina:
- a notificação do vereador Luciano Brito da Silva, na condição de investigado
- o envio de cópia da representação que deu origem ao caso, com tarja de sigilo sobre os dados do denunciante
Isso assegura o direito de defesa e de conhecimento das acusações, preservando ao mesmo tempo a identidade do noticiante.
Requisição de documentos à Câmara Municipal
A promotora requisita, à Câmara de Vereadores de São Lourenço da Mata, o envio de documentos em até 15 dias, incluindo:
- fichas financeiras completas, com:
- contracheques
- comprovantes de pagamento de gratificações
- relativos:
- ao ex-servidor Josenildo José da Silva
- ao seu sucessor direto, José Edson da Silva
- cópia de todos os atos de nomeação e exoneração ligados ao gabinete do vereador Luciano Brito da Silva, a partir de 2021
Esses documentos servirão para:
- verificar a evolução de cargos e nomes no gabinete
- analisar salários, gratificações e eventuais mudanças de remuneração
- cruzar datas de nomeações e exonerações com os relatos de possíveis repasses de valores
Finalidade do inquérito civil
Próximos passos possíveis
O texto da portaria deixa claro que o objetivo do Inquérito Civil é:
- aprofundar as investigações
- colher elementos de prova suficientes
Esses elementos podem subsidiar:
- medidas judiciais, como eventual ação de improbidade administrativa
- ou medidas extrajudiciais, como recomendação, termo de ajustamento de conduta ou arquivamento, caso não se confirmem os indícios
A instauração do inquérito, portanto, não significa condenação, mas sim que o caso passou a uma fase formal e mais estruturada de apuração dentro do Ministério Público.



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