MPPE abre inquérito contra “cartel” “e sobrepreço de R$ 18 milhões na licitação do São João de 2025 em Petrolina

Parecer técnico apontou “combinação de preços” entre empresas com vínculos societários para fraudar concessão do Pátio Ana das Carrancas nas edições de 2025 e 2026

A 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania de Petrolina, no Sertão do São Francisco, instaurou o Inquérito Civil nº 01872.000.165/2025. A portaria, assinada digitalmente pela promotora de justiça Ana Paula Nunes Cardoso em 21 de maio de 2026 e publicada no Diário Oficial do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) nesta sexta-feira, 22 de maio de 2026, formaliza uma investigação de grande impacto econômico e político: a suspeita de formação de cartel e superfaturamento na concessão pública para a realização do São João de 2025 na cidade.

O alvo da varredura do Ministério Público é a Concorrência Eletrônica nº 017/2024, promovida pela Prefeitura de Petrolina para repassar à iniciativa privada a exploração comercial do famoso “São João do Vale” nas edições consecutivas de 2025 e 2026.

O tamanho do contrato e o pátio sob investigação

O objeto do inquérito é passar a limpo o processo de concessão de uso do Pátio de Eventos Ana das Carrancas, a gigantesca arena pública que sedia os megashows, camarotes, barracas e o circuito de patrocinadores do São João do município.

A licitação de concessão foi desenhada pela gestão municipal com um valor global estimado em R$ 18.107.198,94. Por meio desse contrato, a empresa ou consórcio vencedor ganhou o direito de faturar com a venda de ingressos de áreas VIPs, cotas de patrocínio de marcas de bebidas e aluguel de espaços internos, sob a obrigação de montar a estrutura do evento.

A apuração do MPPE, deflagrada de ofício, concentrou-se inicialmente em verificar a regularidade do evento São João do Vale 2025, cuja concessão do espaço público foi estruturada a partir desse certame.

O laudo do NIMPPE: A engenharia da fraude de cartel

A decisão da promotora de converter a apuração preliminar em Inquérito Civil foi amparada em provas materiais fornecidas pela inteligência financeira do próprio Ministério Público: o Parecer Técnico Contábil nº 1619/2026-P, emitido pelo Núcleo de Apoio Técnico Interdisciplinar (NIMPPE/MPPE).

Os peritos em auditoria contábil cruzaram os dados cadastrais das empresas que participaram da fase de montagem do edital e descobriram o seguinte padrão fraudulento:

  • Orçamento inflado artificialmente: Para calcular o valor de R$ 18 milhões do contrato que guiaria o São João de 2025, a prefeitura realizou uma pesquisa de mercado prévia. O MPPE descobriu que as cotações de preços foram enviadas por um grupo restrito de empresas cartelizadas;
  • Vínculos comerciais e societários: A auditoria comprovou que essas empresas parceiras possuíam sócios em comum, operavam no mesmo endereço físico ou compartilhavam procuradores e funcionários, caracterizando uma combinação prévia de valores para simular concorrência e inflar o orçamento base da licitação (sobrepreço).

O uso de empresas de fachada ou “irmãs” para apresentar cotações combinadas é uma tática clássica de cartelização. Ela destrói a competitividade e induz a administração pública a fechar contratos superfaturados, gerando grave dano ao patrimônio público.

Próximos passos e caça aos envolvidos

A promotora Ana Paula Nunes Cardoso ressaltou na portaria que os elementos técnicos colhidos pelo NIMPPE já comprovam a ilegalidade na fase de montagem da licitação, mas que os autos agora entram em fase de instrução criminal e cível para as seguintes medidas:

  1. Mensuração do prejuízo do São João de 2025: Levantar o valor exato desviado dos cofres ou da exploração do espaço público durante a execução real das festividades juninas ocorridas no ano de 2025;
  2. Individualização de condutas: Identificar quais servidores públicos, membros da comissão de licitação e secretários da Prefeitura de Petrolina facilitaram ou ignoraram o vínculo óbvio entre as empresas participantes na etapa preparatória;
  3. Pente-fino extrajudicial: Envio imediato dos autos para a Secretaria Extrajudicial das Promotorias de Justiça de Defesa da Cidadania de Petrolina para intimar os empresários e agentes públicos envolvidos a prestarem depoimentos.

Resumo das informações do inquérito civil

Dados da InvestigaçãoDetalhes Oficiais do Processo
Número do RegistroInquérito Civil nº 01872.000.165/2025 (Portaria 2026)
Órgão Instaurador2ª Promotoria de Defesa da Cidadania de Petrolina / PE
Promotora de JustiçaAna Paula Nunes Cardoso
Foco CentralRegularidade do evento São João do Vale 2025
Certame sob SuspeitaConcorrência Eletrônica nº 017/2024 (Edições 2025 e 2026)
Valor Estimado GlobalR$ 18.107.198,94
Prova Técnica PrincipalParecer Técnico Contábil nº 1619/2026-P (NIMPPE)

Se as fraudes apontadas pelo parecer contábil forem totalmente ratificadas ao final do inquérito, o Ministério Público de Pernambuco poderá ajuizar uma Ação Civil Pública para cobrar o ressarcimento milionário aos cofres da cidade pelas irregularidades consolidadas no São João de 2025, além de pleitear o bloqueio de bens e a perda dos direitos políticos dos gestores públicos envolvidos por atos de improbidade administrativa.

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