Para não dizer que não falei do machismo

Por Ana Carolina Santana – Juíza de Direito

Esse é o último artigo dessa série. 

E talvez algumas pessoas que já conhecem meu trabalho estejam se perguntando quando eu iria falar sobre a violência contra a mulher. 

Caminhando e cantando. E seguindo a canção. Somos todos iguais. Braços dados ou não.

Somos todos machistas! Somos misóginos! Somos seres humanos falíveis, cometendo erros todos os dias. 

Não somos perfeitos. E devemos encarar essa realidade.

Porque é a partir dessa constatação que iniciamos o processo de mudança. 

Mas a mudança não vai nos levar à perfeição. Então, para que mudar? Por que mudar? 

Qual a importância da mudança? 

O caminho percorrido até ela!

Caminhando e cantando. E seguindo a canção. Aprendendo e ensinando. Uma nova lição. 

Quando pensamos sobre violência contra a mulher, há sempre uma perspectiva macro. Índices altíssimos de feminicídios, políticas públicas de proteção à mulher, medidas protetivas e seus botões do pânico, vídeos e vídeos viralizando nas redes sociais, debates vazios e palavras de conflito e ódio para todos os lados, favoráveis e contra, uma sociedade inteira se achando no direito de julgar, acusar, defender, exigir justiça. São muitas camadas nesse aglomerado de ausência de lucidez.

O que o Estado faz deve ser feito. Executivo, Legislativo e Judiciário estão agindo, dentro das suas possibilidades, acompanhando as mudanças sociais e atuando para promover a harmonia que se espera em uma sociedade civilizada. 

E nós? Estamos aprendendo e ensinando uma nova lição? 

O caminho para a mudança não se inicia de fora para dentro. O trajeto é inverso. É de dentro para fora.

A sociedade que almejamos está dentro de nós! Nós é que temos o compromisso de colocar em prática a paz, o diálogo, o respeito!

O ser humano não nasce machista. Há uma introdução, ainda que inconsciente, já na infância, acerca da famigerada superioridade masculina. Tudo isso para retroalimentar um sistema cruel que tem medo que a sensibilidade feminina promova a revolução do amor que tanto queremos, mas que sucumbimos à essa estranha força contrária. 

Precisamos romper esse ciclo olhando para nossas crianças. Acreditando nas futuras gerações. 

Meninos choram sim. Meninos devem chorar quando caem de bicicleta. Isso não os torna “mulherzinha”. Precisamos validar os sentimentos os nossos filhos, dos nossos meninos.

Os meninos não são a causa do machismo. Eles são a cura!

Precisamos educar para o respeito, para o diálogo, para o amor. Isso não é fraqueza ou fragilidade. Isso é nobreza, é grandiosidade. 

Meninas devem crescer se sentindo amadas, respeitadas, validadas em seus sentimentos. Para que jamais permitam qualquer tratamento incompatível com a forma que cresceram. 

Nós adultos estamos todos feridos, cheios de traumas e demandas que precisam de cuidado e de cura. Precisamos olhar para o outro e compreender a dor de cada um. Precisamos encerrar em nós esse ciclo de ódio. 

Não podemos perder o foco do que realmente importa. Empoderamento feminino não se resume a vestir o que quiser ou se relacionar com quantos quiser. A liberdade que vem de dentro promove cura. E saibam que todo excesso esconde uma falta. E se está faltando, ainda não está curado!  

Vem, vamos embora. Que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer. 

Precisamos caminhar o caminho da mudança interna. Precisamos rever a forma que educamos nossos filhos. Romper os ciclos de ódio do passado. Introduzir o afeto e a validação de sentimentos. Sim, homens também choram! 

Para nós, agora. Precisamos acolher. Acolher mulheres e também homens. Promover o despertar da consciência dessa repetição de comportamento. Há um sofrimento coletivo. E não me julguem tentando argumentar que o sofrimento da mulher é muito maior. Não se trata de competição de dor. 

Sei que lendo isso, você pode imaginar que é tudo lindo e perfeito no papel, mas na prática é bem diferente. 

Nem no papel, nem na prática há perfeição. Como falei no início, perfeição não existe e jamais será alcançada. Mas nós podemos escolher entre permanecer no lugar de reprodução de violência por meio de pequenas atitudes, muitas inconscientemente, ou nos mover no caminho da mudança, caindo e levantando. Aprendendo e ensinando. Caminhando e cantando e seguindo a canção, porque nós sabemos que, de fato, somos todos iguais, braços dados ou não.

Publicar comentário

Verified by MonsterInsights