ARTIGO | Os Betas chegam em 2030. E o professor, está pronto?

Por Inácio Feitosa*

Vejo filmes todo fim de semana, e há um enredo que me persegue desde menino: a bomba cai, o mundo acaba, e sobreviventes resistem contra as máquinas. Deus permita que esse não seja o nosso fim. Mas ele nunca me assustou pelo motivo certo. O que me prende é a pergunta que sobra: o que permite ao ser humano resistir?

O cinema responde sempre a mesma coisa, e nunca é a tecnologia. É improvisar, convencer alguém, recomeçar depois da perda. Aprendi isso sem ficção, em Monteiro, no Cariri paraibano, vendo meu avô construir negócios onde ninguém garantia nada.

Voltei a pensar nisso estudando a Geração Beta, os nascidos entre 2025 e 2039, conforme a definição do demógrafo Mark McCrindle. A Z cresceu com a internet, a Alfa com tablets, e a Beta cresce num mundo em que a inteligência artificial já está dentro da escola, do hospital e da conversa. Recusá-la lhes parecerá tão estranho quanto recusar eletricidade.

Só que crescer dentro de uma ferramenta não é o mesmo que saber usá-la com juízo. A Alfa cresceu com tablets e nem por isso aprendeu sozinha a separar informação de propaganda. Alguém precisa ensinar. E esse alguém tem nome, sala e diário de classe.

Diz-se que essa geração não dará valor ao diploma. É meia verdade, e a metade que falta importa. Nos Estados Unidos, a fatia de vagas que exige ensino superior caiu de 51% para cerca de 44% em sete anos. Mas quando pesquisadores de Harvard foram conferir quem de fato foi contratado, a mudança alcançou menos de um em cada setecentos: quase metade das empresas trocou apenas o texto do anúncio. O diploma perdeu a exclusividade, não a relevância.

Diz-se também que a Beta não terá a nossa obsessão com estabilidade, porque viverá mais. Cuidado: nascer sem a promessa de estabilidade não é privilégio, é perda. E quanto a viver mais, vale a régua do IBGE: quem nasce hoje tem expectativa de 76,8 anos, e 76,4 no Nordeste. Não os 90 ou 100 que se repetem por aí.

Mas o dado que mais me inquietou é o mais simples. Falar de Geração Beta soa conversa de futuro distante, e não é. Os primeiros Betas já estão na creche. Em 2030 estarão na pré-escola obrigatória e, no ano seguinte, no ensino fundamental, dentro da vigência dos planos de educação que estamos escrevendo agora. O professor que vai alfabetizá-los já está formado e já está em sala.

Cheguei a supor que essa geração nasceria pronta, com as habilidades de vender, entregar e se reinventar embutidas. Não nasce.

Meus alunos da educação de jovens e adultos aprenderam apanhando da vida, e não desejo esse professor a ninguém. Isso devolve a responsabilidade a quem sempre a teve: a família e a escola. E cuidar da Beta começa num lugar improvável, educar os adultos de hoje, que são os pais dela.

A resistência dos filmes, no fim das contas, não é contra as máquinas. É contra o esquecimento. Quanto mais a máquina avança, mais caro fica o que só o humano sabe fazer. Fica então a provocação a quem está na sala de aula.

Quando o Beta sentar na sua cadeira, ele terá no bolso uma máquina que responde tudo, mais rápido e sem impaciência. Se a aula continuar sendo o lugar onde se transmite resposta, ele descobrirá cedo que não precisa de nós. Mas não há algoritmo que ensine a improvisar quando o plano falha, a convencer alguém olhando nos olhos, a levantar depois da perda.

Professor, faltam quatro anos: o senhor está preparando a sua aula para competir com a máquina ou para ensinar o que ela nunca fará?

Que Deus nos dê o discernimento de fortalecer, desde a escola, a única tecnologia que nunca ficou obsoleta: o ser humano.

*Inácio Feitosa é advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor (projetos@igeduc.org.br)

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