Primeira sertaneja no Conselho Federal da OAB aborda a rotina de trabalho, os desafios na advocacia no interior e defende o equilíbrio institucional e a segurança jurídica
A advogada, ex-presidente da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Afogados da Ingazeira e atual conselheira federal da OAB a nível nacional, Laudicéia Rocha, participou da edição do programa Causos & Causas, exibida no canal da ELLO TV no YouTube no sábado (19). Durante o programa conduzido pelo apresentador André Luís, a entrevistada abordou sua trajetória profissional desde o início na zona rural de Tabira, os impactos do tratamento e da superação do câncer em sua visão de vida, a representatividade da advocacia do interior e o papel constitucional do Supremo Tribunal Federal (STF) e da OAB. As informações e declarações foram prestadas diretamente pela convidada ao longo da transmissão.
Mudança de perspectiva, rotina e a superação do câncer
Durante a entrevista, a advogada detalhou como a experiência do diagnóstico e o tratamento contra o câncer transformaram sua relação com a rotina de trabalho e a necessidade de descanso. Laudicéia Rocha destacou que passou a priorizar a qualidade do sono e a saúde física e espiritual após o enfrentamento da doença.
“Eu aprendi que a gente tem que ter momentos de descanso, de relaxar e de respirar. Acho que passei a maior parte da minha vida sem respirar, muitas vezes dizendo que estava sem oxigênio e apavorada com tanta coisa para fazer. Hoje, talvez depois do câncer, do medo de morrer e de muitas coisas que aconteceram na minha vida, percebo a necessidade de dormir bem”, declarou Laudicéia Rocha.
A conselheira federal ressaltou ainda a dimensão humana advinda do processo de cura e como encara a condição de sobrevivente:
“Sem sombra de dúvida, o adoecimento com o câncer e a luta para vencê-lo me tornaram uma pessoa mais humana e mais perceptível ao meu redor. […] Enfrentei o câncer e gosto de dizer que sou uma sobrevivente, encarando isso com naturalidade para que as pessoas não tenham vergonha de dizer que tiveram ou estão lutando contra a doença. Hoje dou muito mais valor à família, à minha casa, ao meu descanso e a mim mesma.”
Desafios da advocacia no interior e histórias marcantes
Com atuação iniciada na área jurídica há mais de 25 anos, após sua formação em dezembro de 1997 e inscrição na OAB em março de 1998, a advogada relembrou as barreiras culturais enfrentadas no início da carreira por ser mulher e não pertencer a famílias tradicionais do meio jurídico local.
“No início da minha carreira, há 27 anos, quando me formei no interior de Pernambuco, a advocacia culturalmente era associada a grandes famílias ou proprietários de terra. Para ser advogada, parecia necessário ser filha de juiz, de promotor ou parente de dono de cartório. Em todo ambiente onde eu chegava, perguntavam quem eram meus pais ou de onde eu vinha. Gosto de contar isso porque não sou filha de ninguém famoso e vivi esse tabu cultural por ser mulher e não vir de família influente”, relatou.
Entre os fatos presenciados na profissão, Laudicéia contou o depoimento de uma testemunha de 83 anos em uma audiência de reintegração de posse na comarca de Tabira:
“Ao terminar a audiência, a senhora virou-se para a magistrada e disse: ‘Oi moça, tá muito boa a palestra, gostei muito de você, mas eu vim aqui porque o juiz me chamou, cadê o juiz de direito?’. Guardarei essa história para o livro como um retrato da cultura antiga de que o juiz precisava ser um homem.”
Representatividade no Conselho Federal e o papel do STF
Nascida no Sítio São Miguel, na zona rural de Tabira, filha de agricultor e de uma professora leiga, a conselheira destacou o significado de sua atuação no órgão nacional da OAB em Brasília.
“Tenho muito orgulho de ser a primeira sertaneja no Conselho Federal da OAB, representando a advocacia do interior de Pernambuco em Brasília. […] Chegar ao Conselho Federal demonstra que a advocacia do interior conquistou espaço após décadas de luta”, afirmou.
Ao comentar o cenário institucional e a atuação do Supremo Tribunal Federal, a advogada posicionou-se favorável à preservação do equilíbrio entre os Poderes e ao respeito ao devido processo legal:
“A segurança jurídica exige que o Supremo Tribunal Federal guarde a Constituição e atue com seriedade, transparência e equilíbrio. […] O Conselho Federal da OAB precisa agir com cautela, firmeza e respeito às instituições e autoridades constituídas, cumprindo seu papel constitucional. […] Não concordo com pedidos de impeachment ou desconstituição da Suprema Corte motivados por crises conjunturais, devendo-se respeitar a Constituição Federal e a segurança jurídica.”
Quinto Constitucional e eleição no TJPE
A conselheira federal abordou também a disputa pela vaga do Quinto Constitucional destinada à advocacia no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), decorrente da aposentadoria do desembargador Sertório. A votação da OAB Pernambuco está agendada para o dia 6 de outubro.
“Tenho apoiado as candidaturas de Janyelle Nunes e de Jorge Wellington por representarem o fortalecimento da advocacia do interior do estado. É fundamental que a advocacia participe dessa votação para assegurar a representatividade da categoria”, explicou, reforçando que não possui pretensão pessoal de concorrer a cargos na magistratura para continuar atuando diretamente na advocacia.
Foto: reprodução/YouTube
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