Vinte mulheres privadas de liberdade compõem os relatos do livro “180: Antes que seja tarde demais”, lançado na Colônia Penal Feminina do Recife (CPFR) no mês de setembro. A obra é resultado de uma oficina literária realizada ao longo de um mês na Colônia com o apoio da Escola Estadual Olga Benário Prestes, localizada no interior da unidade. Durante o exercício, as internas puderam refletir e narrar os tipos de violência recorrentes na experiência feminina ao escreverem cartas para si mesmas em diferentes momentos da vida: quem foram, quem são e quem ainda querem ser.
A metodologia foi organizada e apresentada por Alex Giostri (Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Giostri Editora) em conjunto com as professoras de Língua Portuguesa Karina Lima, Anna Clisley e a Policial Penal e Supervisora de Educação da Unidade Allayni Vasconcelos. A publicação foi possível graças a uma parceria entre as secretarias estaduais de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap-PE) e de Educação (SEE), o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Editora Giostri.
Em um primeiro momento, focado na infância e na formação pessoal sob o tema “Nem tudo parece violência”, as participantes resgataram memórias familiares e padrões comportamentais naturalizados ao longo dos anos.O segundo momento abordou o presente e os relacionamentos abusivos na seção “Entre o medo de ir e a dor de ficar”. Por fim, o olhar para o futuro foi trabalhado na etapa “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, voltada à projeção de novos caminhos, identificação de redes de apoio e estratégias de reconstrução da autonomia. Além das cartas, as alunas elaboraram desenhos livres referentes aos temas em sala. O processo pedagógico utilizou livros, vídeos, documentários, conhecimento normativo e rodas de conversa para fundamentar as discussões sobre o tema da violência doméstica.

Para a professora Anna Clisley, a abordagem facilitou a identificação de agressões que vão além do dano físico. “Em uma sociedade patriarcal, muitas vezes, a violência é só aquela que deixa marcas, como se a violência verbal, a violência patrimonial, os outros tipos de violência não existissem. Então, uma das maiores dificuldades era reconhecer o que passaram. Quando o tema foi lançado, muitas achavam que não tinham sofrido com isso. A partir das oficinas, dos vídeos, ao mostrar que existe uma lei que protege e o que é descrito ali, tivemos o reconhecimento dessas violências, o reconhecimento de que talvez uma palavra tenha marcado para o resto da vida”.
Anna relata, ainda, que a atividade permite uma maior sensibilização das mulheres apenadas e as histórias que carregam consigo. “É um processo da gente reconhecer o mais íntimo delas, o que está por trás da tipificação. Naquele momento não era quem cometeu, é a pessoa, é a mulher que sofreu violência, que precisou de socorro”, afirma.
A professora Karina Lima relata que o impacto do exercício exigiu acolhimento por parte da equipe de ensino, que também pode ser tocada pelo processo. “No começo, elas não queriam falar. Vi que a temática tocava em feridas que estavam bem vivas dentro delas. Então eu disse a elas que naquele momento, elas só iriam escrever. Quando começaram a escrever, fui observando que as lágrimas caíam, as mãos ficavam trêmulas, elas ficavam inquietas, balançavam os ombros. Depois disso, nas cartas seguintes, elas já estavam mais sossegadas, já pediam a palavra. Foi quando eu percebi que a escrita liberta. A escrita derruba os muros da Penitenciária de uma forma tão grandiosa que, no final, quem chorou fui eu”, declara a docente.

Para a supervisora educacional Allayni Vasconcelos, garantir que esses relatos reverberem fora do sistema prisional é parte essencial da publicação: “Eu não uso a expressão ‘dar voz’, porque elas já têm voz, o que acontece é que elas não são escutadas. Com o lançamento dessa obra, a oportunidade que a gente dá é que essas vozes cheguem a lugares que talvez não chegassem antes, por conta do descrédito, do estigma. É levá-las para além daqui”.
Entre as autoras, a designer de interiores M.D.C, de 34 anos, conta que reconstruir a própria trajetória por meio das cartas foi doloroso, mas permitiu reflexões profundas sobre os desdobramentos dessa violência. “Na verdade, as cartas me serviram como reflexão. Acho que eu já tinha parado para entender, mas não para refletir. Toda violência que eu sofri, que a minha mãe sofreu, refletiram na mulher que eu fui durante muito tempo. Entender que aquilo não era certo, que aquilo não era correto, me fez ser hoje uma mulher que é totalmente contra a violência e uma mulher no futuro que vai ser totalmente contra a violência. Então, mesmo doendo, refletir foi bom, me transformou, me fez ver de um ângulo maior”.
Ela ressalta, também, o papel do livro em aproximar a sociedade da realidade vivida no cárcere. “Muitas pessoas lá fora acham que a gente não tem voz, que não tem história, que tudo é um crime, que tudo é o que a gente passou. Acho que esse livro traz as pessoas que estão lá fora para mais próximo da gente que está aqui dentro e faz entender que aqui tem pessoas normais que sangram, que que sentem dor, que têm família, filhos. Pessoas que cometeram erros, mas que mesmo assim ainda podem ter esperança, sabe, e que precisam dessa esperança”.
A professora primária G.S.B, de 46 anos, revela que o processo de publicar um livro é tão gratificante “como ter um filho” para ganhar o mundo. Seu desejo é que o conteúdo relatado sirva de alerta para outras mulheres. “Eu espero que nenhuma mulher passe por nada parecido que está sendo relatado ali, que possa ser um alerta para elas, de que não estão sozinhas. Muitas que estão passando por isso acham que é algo normal, estar sendo agredida, ameaçada, achando que ele vai mudar, mas nunca vai mudar. Quem tem que mudar é quem está sendo agredida. Pedir ajuda, pedir socorro”, conta.
A execução de atividades de leitura e escrita no sistema penitenciário está fundamentada na Lei de Execução Penal e na Convenção das Nações Unidas sobre o Tratamento de Reclusos (Regras de Mandela), que garantem o acesso à educação e a programas de reabilitação. O juiz de execução penal Evandro Cabral destacou o duplo caráter positivo desse tipo ação: “O Tribunal de Justiça, através da Vara de Execução Penal, prestou e presta todo o seu apoio e solidariedade a tão grande iniciativa do livro. Na execução penal, a arte como forma de expressão e a leitura, além do enriquecimento humano, também são modos de remição da pena. Que venham mais obras como essa, para visibilizar setores menos favorecidos da sociedade”.
Para o editor e consultor do CNJ, Alex Giostri, a escrita no cárcere gera uma espécie de catarse. Ele afirma que “a literatura no sistema prisional possibilita um maior um encontro da pessoa consigo mesma, com sua subjetividade. No caso da leitura, isso permite a identificação com outros personagens, uma maneira mais ampla de ver a vida; e na escrita, é uma possibilidade da pessoa sair do sistema prisional e eternizar algo que pode ser utilizado positivamente no futuro. A pessoa privada de liberdade lê, primeiramente, por conta da remição, mas a partir da remição todas encontram uma outra relação com o mundo das palavras”.
Texto: Clarice Rabelo | Ascom TJPE
Foto desaque: Assis Lima | Ascom TJPE


