ARTIGO | Do palanque ao algoritmo: a nova política brasileira

Entenda como as redes sociais, os cortes virais e a Resolução TSE nº 23.781/2026 transformaram a disputa eleitoral e redefiniram as campanhas políticas no Brasil.

Por Vamário Wanderley*

A política brasileira mudou. E não foi apenas a forma de pedir votos.

As eleições de 2022, 2024 e, agora, 2026 revelam uma transformação mais profunda: o ambiente digital deixou de ser instrumento auxiliar de campanha e passou a ocupar o centro da própria disputa política.

Durante décadas, construir uma carreira política exigia estruturas relativamente conhecidas: partido forte, alianças regionais, presença territorial, recursos financeiros, espaço na televisão e anos de acumulação de capital político.

Esse modelo não desapareceu. Mas já não é suficiente.

Hoje, uma liderança pode construir projeção nacional a partir de um celular. E políticos com décadas de vida pública passaram a disputar a atenção do eleitor com uma geração que domina uma linguagem completamente diferente daquela da política tradicional.

Os resultados de 2026 são emblemáticos. Nikolas Ferreira ultrapassou três milhões de votos em Minas Gerais. Em São Paulo, Lucas Pavanato também superou a marca dos três milhões. Erika Hilton alcançou quase 1,6 milhão e Sâmia Bomfim obteve mais de 583 mil votos.

E talvez um dos casos mais simbólicos seja o de Ana Elisa Santos Silva. Aos 21 anos, em sua primeira eleição, a jovem mineira conquistou mais de 524 mil votos e tornou-se a mulher mais jovem eleita deputada federal. Antes mesmo de disputar uma eleição, já reunia cerca de 1,9 milhão de seguidores em uma única rede social. Sua campanha foi desenvolvida principalmente pelas plataformas digitais.

São nomes de campos ideológicos diferentes. Isso é importante porque demonstra que não estamos diante de um fenômeno de direita ou de esquerda: estamos diante de uma nova forma de fazer política.

Uma geração chega enquanto outra sai

As urnas de 2026 também produziram outra fotografia que merece atenção. Nomes que durante décadas ocuparam posições centrais na política brasileira estarão fora da próxima composição do Congresso.

Renan Calheiros não conseguiu renovar seu mandato no Senado. Ciro Nogueira e Randolfe Rodrigues também não foram reeleitos. Na Câmara, Rui Falcão e Paulo Teixeira não conseguiram a reeleição. Vicentinho também ficou de fora. José Dirceu tentou retornar à Câmara dos Deputados, mas não foi eleito.

Outras figuras nacionais deixaram seus cargos atuais para disputar o Senado e também não tiveram êxito. Benedita da Silva terminou em terceiro lugar no Rio de Janeiro. Gleisi Hoffmann ficou em quarto no Paraná. Simone Tebet terminou em terceiro na disputa por São Paulo. Jorge Viana tentou retornar ao Senado pelo Acre, mas também não conseguiu.

Naturalmente, seria precipitado atribuir essas derrotas à falta de presença ou de habilidade nas redes sociais. Eleições são fenômenos complexos, que dependem de conjunturas locais, alianças, partidos, governos, rejeições, recursos, chapas e inúmeras outras circunstâncias.

Mas a fotografia geral merece reflexão: enquanto personagens com décadas de protagonismo deixam o Congresso ou fracassam na tentativa de retornar a ele, uma geração mais jovem, em grande parte formada politicamente dentro das redes sociais, alcança votações extraordinárias.

Não se trata apenas de saber quem possui mais seguidores. A questão é compreender quem conseguiu adaptar sua linguagem à maneira pela qual o eleitor passou a consumir política. Estar nas redes sociais não significa compreender as redes sociais, e essa diferença passou a integrar a disputa eleitoral.

O debate virou conteúdo

Talvez a eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2024, tenha representado um dos momentos mais claros dessa transformação. Independentemente de qualquer avaliação política sobre Pablo Marçal, sua campanha merece ser analisada como fenômeno de comunicação eleitoral.

Marçal compreendeu e explorou algo que posteriormente passou a integrar definitivamente a lógica das campanhas: o debate eleitoral não termina quando as câmeras são desligadas.

Durante décadas, o debate televisivo foi pensado para o eleitor que permanecia duas ou três horas diante da televisão acompanhando perguntas, respostas e propostas. Na lógica digital, isso mudou. Cada intervenção pode se transformar em alguns segundos de conteúdo: uma frase, uma provocação, uma reação, um confronto, um corte. Esse pequeno trecho é publicado no Instagram, TikTok, X, YouTube ou WhatsApp e pode alcançar muito mais pessoas do que aquelas que acompanharam o debate inteiro.

Na campanha paulistana de 2024, levantamentos de engajamento já demonstravam a força dessa estratégia. Após um dos debates, Marçal registrou crescimento expressivo nas interações e concentrou grande parte das publicações de maior repercussão entre os candidatos analisados.

O debate havia deixado de ser apenas debate. Tornara-se também matéria-prima para a produção de conteúdo.

Isso modifica inclusive o comportamento dos candidatos. O incentivo deixa de ser apenas apresentar a melhor proposta e passa a ser também produzir o melhor corte. Uma explicação técnica sobre orçamento, segurança ou educação dificilmente possui o mesmo potencial de viralização de uma provocação, uma frase de efeito ou um confronto.

O algoritmo premia atenção. E atenção nem sempre significa qualidade do debate público.

Lula troca a câmera da televisão pelo celular

Talvez nada demonstre melhor a dimensão dessa transformação do que a mudança de estratégia ocorrida na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva após o primeiro turno de 2026.

Lula é um dos maiores símbolos da política brasileira construída antes da era das redes sociais. Sua trajetória atravessou sindicatos, grandes comícios, rádio, televisão e campanhas presidenciais desde o final da década de 1980.

No segundo turno de 2026, porém, sua comunicação começou a incorporar uma linguagem diferente. O presidente passou a publicar vídeos gravados com a câmera frontal do telefone, em formato selfie, buscando uma comunicação mais direta e adaptada às plataformas digitais.

A mudança ocorreu no mesmo período em que jovens lideranças de forte presença digital passaram a ganhar espaço na estratégia eleitoral. Ana Elisa, por exemplo, tornou-se um dos nomes da nova geração petista com destaque na campanha digital. Erika Hilton e Sâmia Bomfim também representam uma esquerda que compreendeu que mobilização política e comunicação nas redes passaram a caminhar juntas.

A imagem de Lula gravando uma selfie é mais simbólica do que parece. Um político que iniciou sua trajetória nacional quando a televisão era o grande instrumento de comunicação de massa agora precisa falar olhando para a câmera de um celular. Não significa abandono da política tradicional; significa adaptação.

Do outro lado, Flávio chama Marçal

A mesma transformação ocorre no campo adversário. Na reta final do segundo turno presidencial, Pablo Marçal passou a ocupar espaço na mobilização digital em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Em 20 de outubro, um encontro realizado em Barueri reuniu Flávio, Marçal, aliados políticos e cerca de 400 influenciadores digitais. Segundo informações divulgadas sobre o evento, os participantes somavam aproximadamente 200 milhões de seguidores, e a reunião tinha como objetivo produzir conteúdo e ampliar o alcance digital da campanha nos últimos dias antes da votação. Orientações sobre como e o que publicar nas redes foram transmitidas aos participantes.

É difícil encontrar imagem mais clara da nova política eleitoral:

  • De um lado, Lula muda a linguagem e passa a produzir vídeos em formato selfie, enquanto uma nova geração de políticos e influenciadores digitais ganha espaço em sua campanha;
  • Do outro, Flávio Bolsonaro participa de um encontro com centenas de influenciadores, ao lado de Pablo Marçal, justamente para potencializar a produção e a distribuição de conteúdo.

A disputa presidencial acontece simultaneamente em dois ambientes: existe a campanha das ruas, dos partidos, dos palanques, das entrevistas e dos debates; e existe a campanha do algoritmo.

O eleitor também virou mídia e o marco da Resolução TSE nº 23.781/2026

Na campanha tradicional, o eleitor era essencialmente destinatário da propaganda. Hoje, ele também é distribuidor: recebe um vídeo e encaminha; recorta uma fala e publica; comenta, reage, cria memes, participa de grupos, administra páginas e distribui conteúdos políticos.

Em outras palavras, cada celular pode funcionar como um pequeno comitê eleitoral. Essa descentralização criou um problema jurídico novo: em que momento termina a manifestação espontânea do eleitor e começa uma estrutura organizada de campanha?

A questão deixou de ser meramente acadêmica em 2026. A utilização de canais e grupos de mensageria para mobilização eleitoral, inclusive experiências de grande alcance como o denominado “Exército do Lula”, colocou em evidência a dificuldade de distinguir mobilização espontânea, atuação de apoiadores e estruturas efetivamente vinculadas às campanhas.

Em 16 de outubro de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral editou a Resolução nº 23.781, alterando a regulamentação da propaganda eleitoral na internet. A norma passou a estabelecer critérios objetivos, e não cumulativos, para identificar quando canais de mensageria instantânea, fóruns e outros ambientes digitais devem ser considerados vinculados formalmente a uma campanha:

  • utilização de recursos da campanha;
  • suporte material ou humano;
  • suporte técnico ou tecnológico;
  • intercâmbio habitual de conteúdos;
  • divulgação do canal pelos perfis oficiais;
  • direcionamento coordenado de seguidores;
  • orientação sobre conteúdo, frequência de publicação ou metas.

Ao mesmo tempo, o TSE fez uma ressalva fundamental: a manifestação espontânea de apoio político por pessoa natural, inclusive mediante reprodução de conteúdos publicamente divulgados pela campanha, não caracteriza, por si só, vínculo formal.

O significado institucional dessa mudança é profundo. O Direito Eleitoral começa a criar categorias para uma política que já mudou. A fronteira entre militância digital e estrutura eleitoral formal passa agora pelo crivo dessas balizas objetivas.

Do palanque ao algoritmo

Durante boa parte do século XX, o grande símbolo da política foi o palanque. Depois veio a televisão. Agora, o poder passa também pelo algoritmo.

Isso não significa o desaparecimento dos partidos, da televisão, das alianças ou das estruturas territoriais, tampouco que milhões de seguidores sejam garantia de milhões de votos. Mas significa que nenhuma liderança política poderá ignorar o ambiente digital sem pagar um preço eleitoral cada vez maior.

A linguagem digital exige velocidade, autenticidade, interação, narrativa e domínio dos formatos de cada plataforma. Os novos políticos perceberam isso antes; os tradicionais estão sendo obrigados a perceber agora.

Ana Elisa chega à Câmara aos 21 anos após reunir quase dois milhões de seguidores. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato superam três milhões de votos. Erika Hilton e Sâmia Bomfim consolidam a mobilização digital progressista. Lula recorre a selfies, Flávio Bolsonaro mobiliza influenciadores e Pablo Marçal converte experiência digital em método de campanha.

A transformação já aconteceu; resta saber como a democracia brasileira aprenderá a conviver com ela. As redes reduziram barreiras de entrada e permitiram o surgimento de novas lideranças, mas trazem riscos evidentes: a velocidade pode vencer a reflexão, a indignação render mais engajamento do que a ponderação e o debate público deixar de procurar o melhor argumento para priorizar o melhor corte.

Conclusão

Talvez, no futuro, as eleições de 2022, 2024 e 2026 sejam lembradas como o período em que a política brasileira atravessou definitivamente essa fronteira.

Antes, o eleitor esperava o horário eleitoral para ouvir o candidato. Hoje, candidato e eleitor convivem diariamente na mesma tela. Antes, o debate terminava quando as câmeras eram desligadas. Hoje, é justamente quando as câmeras desligam que começa a disputa decisiva sobre quem vencerá a narrativa nas redes sociais.

A política brasileira entrou na era do algoritmo. E quem ainda enxergar as redes sociais apenas como instrumento acessório de divulgação descobrirá que não estamos diante apenas de uma nova forma de comunicar a política, mas diante de uma nova forma de fazer política.

Foto: Divulgação

*Vamário Wanderley (OAB/DF 69.680), sócio-fundador do Vamário Wanderley Advocacia e presidente da Comissão de Fiscalização de Concursos Públicos da OAB/DF. Foi membro consultor da Comissão Especial de Inteligência Artificial do Conselho Federal da OAB. Aprovado nos concursos para Juiz de Direito e Delegado da Polícia Federal, é mestrando em Direito Público e possui LL.M. em Direito dos Tribunais Superiores pelo IDP.

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