ARTIGO | Empresa, maternidade e saúde mental: o bem-estar psicossocial também precisa caber na vida real

Foto gerada por IA

Por Isabela Lessa*

O bem-estar psicossocial entrou, de vez, na pauta das empresas. E já não era sem tempo. Com a atualização da NR-1 e a exigência de um olhar mais atento para os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, os CNPJs passam a ser chamados, com mais clareza e responsabilidade, a organizar ambientes laborais que não adoeçam as pessoas. Falar de saúde mental, agora, não pode ser apenas uma bonita campanha no Setembro Amarelo, uma palestra anual ou uma frase bem diagramada no mural da empresa. É preciso coerência.

E, quando falamos de coerência, uma pergunta precisa entrar na sala de reunião, sentar à mesa do RH e circular pelos corredores da liderança: como uma empresa pode falar em bem-estar psicossocial sem olhar, com seriedade, para a maternidade real? Porque sabe o que assegura bem-estar psicossocial a uma mulher mãe? É poder cuidar da sua prole. É conseguir levar o filho ao médico sem ser tratada como alguém menos comprometida. É ter alguma flexibilidade para participar da reunião pedagógica, da adaptação na creche, da apresentação escolar, da vida acontecendo fora da planilha. É trabalhar em um ambiente que compreenda que maternar não retira foco. Pelo contrário: amplia repertório, senso de urgência, criatividade, responsabilidade, capacidade de negociação, presença e potência afetiva.

Maternar é, todos os dias, administrar riscos, mediar conflitos, tomar decisões rápidas, organizar rotinas, acolher emoções, recalcular rotas e sustentar vínculos. Estranhamente, muitas dessas competências são exaltadas em programas de liderança, mas ainda são invisibilizadas quando nascem da experiência materna. E isso revela uma contradição importante: o mercado valoriza a competência, mas muitas vezes penaliza o caminho por onde ela foi construída.

No Brasil, essa discussão é ainda mais urgente. Vivemos em um país profundamente marcado pela sobrecarga feminina, pela desigualdade na divisão do cuidado e pela realidade de milhões de mulheres que sustentam suas famílias sozinhas. Falar em saúde mental no trabalho, portanto, exige reconhecer que a vida profissional dessas mulheres não começa quando elas batem o ponto, abrem o notebook ou entram na reunião. Elas já chegam tendo organizado o café, a mochila, o remédio, o boleto, o uniforme, o transporte, a consulta, a culpa e, muitas vezes, a ausência de uma rede de apoio.

E ainda assim produzem. Criam. Lideram. Resolvem. Entregam. Por isso, acolher a maternidade no ambiente corporativo não é favor. Não é concessão graciosa. Não é privilégio. É uma gestão responsável. É prevenção de adoecimento. É compromisso com equidade. É inteligência institucional. Uma empresa verdadeiramente saudável não é aquela que apenas mede riscos. É aquela que cria condições concretas para que as pessoas possam trabalhar, produzir, cuidar, pertencer e viver com dignidade.

É nesse contexto que eu não poderia deixar de destacar um projeto tão necessário, bonito e transformador, do qual tenho a alegria de fazer parte há tanto tempo: Filhos no Currículo. Porque filhos não são lacunas na trajetória profissional. Filhos são potência geradora de vida, de capacidade, de reinvenção, de organização emocional, de criatividade e de responsabilidade.

A maternidade não empobrece o currículo de uma mulher. Ela revela competências que o mercado, muitas vezes, ainda não aprendeu a nomear: gestão de crise, tomada de decisão sob pressão, planejamento, negociação, escuta, adaptação, liderança e cuidado.

E quando falamos em empresas comprometidas com saúde mental, bem-estar psicossocial, compliance, integridade e ambientes mais sustentáveis, precisamos também falar sobre a postura institucional diante da maternidade.

Cabe às organizações compreenderem a importância social desse desenvolvimento. Não apenas como uma pauta de diversidade, mas como uma escolha civilizatória: reconhecer que cuidar de crianças, formar pessoas e sustentar vínculos também é parte da construção de uma sociedade mais saudável.

Políticas de flexibilidade, escuta qualificada, lideranças preparadas, comunicação não violenta, previsibilidade, apoio no retorno da licença-maternidade, respeito às urgências familiares e combate aos vieses contra mães não são “benefícios simpáticos”. São práticas de governança humana. São medidas concretas de proteção psicossocial.

Afinal, mães não precisam de discursos bonitos sobre saúde mental. Precisam de políticas possíveis, lideranças maduras e ambientes que entendam que cuidado também é produtividade — só que com humanidade. Valorizar mães no trabalho é valorizar o futuro. E incluir os filhos no currículo é lembrar ao mundo corporativo que a vida não interrompe a competência. Muitas vezes, é justamente ela que a expande.

*Isabela Lessa é advogada sócia fundadora do Bahia, Lins e Lessa sociedade de advogadas, Professora, mestre, palestrante, Ex-diretora geral da ESA e Mãe de Tobias e Theo.

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