MPPE investiga desvio de van do PAA em Orocó para mudanças e entrega clandestina de carne a frigoríficos

Promotor aponta contradição em defesa da prefeitura, adverte sobre risco de contaminação cruzada de alimentos e aciona Vigilância Sanitária e Detran

A Promotoria de Justiça de Orocó, no Sertão do São Francisco, instaurou o Procedimento Administrativo nº 01689.000.075/2025 para apurar graves denúncias de desvio de finalidade, improbidade administrativa e riscos sanitários no uso da frota pública municipal. A portaria de instauração, assinada pelo promotor de justiça Filipe Venâncio Côrtes e publicada no Diário Oficial do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), mira o uso clandestino de um veículo oficial destinado ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) — uma das principais políticas públicas de segurança alimentar e nutricional da região.

De acordo com os autos, o veículo oficial — uma van Fiat Ducato Cargo (ano 2019), de placa RED1H41 —, sob a responsabilidade da Secretaria de Ação Social, vinha sendo desvirtuado de suas funções institucionais para servir a interesses estritamente privados.

Mudanças particulares e transporte irregular de carnes

O estopim da investigação foi uma denúncia formalizada pelo vereador Ricardo Pereira Amando Menezes. O parlamentar reuniu indícios de que o utilitário público, cuja função exclusiva deveria ser o escoamento e o transporte regular de gêneros alimentícios hortifrutigranjeiros para comunidades vulneráveis da zona urbana e rural, estava sendo operado como caminhão de mudanças particulares e para a entrega de carnes em frigoríficos locais.

O uso do compartimento de carga da van para fins comerciais privados chamou a atenção da promotoria pelo potencial risco à saúde pública. O MPPE alertou para o perigo iminente de contaminação cruzada, uma vez que o mesmo baú de carga refrigerada ou isolada estaria misturando carnes cruas com frutas e verduras distribuídas à população, sem qualquer padrão de higiene.

MPPE desmascara “álibi” temporal da Prefeitura de Orocó

Ao tentar se defender na fase preliminar de Notícia de Fato, a Prefeitura de Orocó enviou o Ofício nº 124/2025 apresentando uma justificativa que acabou por se tornar uma “armadilha” cronológica contra a própria gestão.

A assessoria do prefeito alegou que o veículo oficial não poderia ter cometido as irregularidades porque estava apreendido em um pátio credenciado. Contudo, o promotor Filipe Venâncio realizou o cruzamento de dados e detectou uma contradição temporal insanável:

  • O Flagrante: Os atos de vandalismo patrimonial e desvio de finalidade (mudanças e fretes de carne) ocorreram no dia 27 de abril de 2025;
  • A Justificativa: Em manifestação assinada no dia 11 de agosto de 2025, a prefeitura declarou que o carro estava retido “há aproximadamente 90 dias”;
  • A Conta do MPPE: O cálculo matemático do promotor comprovou que os 90 dias de apreensão retroagiam apenas até meados de maio de 2025. Portanto, na data do fato denunciado (abril), o automóvel estava livre, circulando e plenamente operacional na mão dos secretários.

Para agravar a situação de suspeição, o Executivo municipal entrou em omissão, recusando-se a cumprir o Ofício nº 136/2025 do MPPE, sonegando deliberadamente a lista de motoristas oficiais e as ordens de serviço da van.

Pente-fino: Intimações e caça a transporte de animais vivos

Com a abertura oficial do Procedimento Administrativo, o promotor de justiça emitiu ordens mandatórias fixando o prazo peremptório de 20 (vinte) dias para as seguintes diligências:

  1. Ultimato ao Prefeito e Secretário: Intimação para entregarem o processo de apreensão do veículo, os livros de ponto de todos os motoristas da Ação Social (meses de março, abril e maio de 2025) e as notas que comprovem como o PAA continuou funcionando sem o carro chefe da frota;
  2. Rastreamento via DETRAN-PE: Oficiou-se a direção do órgão de trânsito estadual para enviar o histórico completo de multas e o extrato descritivo de guinchamento, entrada e saída da van de placa RED1H41 no ano de 2025;
  3. Blitz da Vigilância Sanitária: Determinação para que os fiscais sanitários de Orocó façam inspeções em toda a frota do PAA para verificar se os veículos ainda transportam carne a frigoríficos ou se servem para o recolhimento ilegal de animais vivos (caprinos e ovinos) na zona rural.

Resumo das balizas do procedimento

Dados do InquéritoEspecificações Oficiais
Número do RegistroProcedimento Administrativo nº 01689.000.075/2025
Órgão de OrigemPromotoria de Justiça de Orocó / PE
Promotor de JustiçaFilipe Venâncio Côrtes (20/05/2026)
Veículo AlvoVan Fiat Ducato Cargo, Placa: RED1H41
IrregularidadesFretes privados, desvio do PAA e risco de contaminação cruzada

A portaria foi remetida ao Centro de Apoio Operacional (CAOP) de Defesa do Patrimônio Público e ao Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para acompanhamento regulamentar. Se as vistorias e os cartões de ponto confirmarem o desvio deliberado da van para particulares, o Ministério Público poderá acionar o prefeito e o secretário por ato de improbidade administrativa, exigindo o ressarcimento dos valores dos fretes desviados e a aplicação de multas por desrespeito às leis sanitárias de alimentos.

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