Advogada, professora e presidente da AAPREV, candidata defende maior proximidade entre Tribunal, advocacia e sociedade e afirma que experiência profissional pode contribuir para uma Justiça mais célere e humanizada
A trajetória de quase duas décadas na advocacia, a experiência na área previdenciária e a atuação à frente da Associação dos Advogados Previdenciaristas de Pernambuco (AAPREV) estão entre os elementos que levaram a advogada Tallyta Bione a disputar uma vaga pelo Quinto Constitucional do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).
Natural de Salgueiro, no Sertão pernambucano, Tallyta conta que foi a primeira pessoa da família a seguir a carreira jurídica. A mudança para o Recife ocorreu ainda na época do vestibular. O primeiro contato com a advocacia aconteceu durante um estágio voluntário na 9ª Vara de Família, no Fórum Joana Bezerra, experiência que, segundo ela, foi decisiva para a escolha profissional.
A aproximação com o Direito Previdenciário veio posteriormente, durante uma pós-graduação em Direito Público. Um primeiro caso encaminhado por uma amiga acabou se transformando na porta de entrada para uma área que se tornaria predominante em seu escritório.
Da necessidade de pagar os estudos à especialização
A formação na área previdenciária também foi marcada por uma experiência pouco comum. Para custear a própria especialização, Tallyta passou a preparar e vender comida nos fins de semana. Feijoada, dobradinha, caldeirada e bobó faziam parte do cardápio comercializado em Setúbal.
A rotina exigia conciliar trabalho, advocacia e estudos. Ela relata que reservava parte dos fins de semana para as vendas e chegava a faltar um fim de semana por mês para participar das aulas da especialização.
A fase inicial da carreira também envolveu dificuldades relacionadas à mudança para a capital. Morando sozinha em um pensionato, Tallyta conta que enfrentou limitações de acesso à tecnologia e à internet, além da necessidade de estudar por meio de fotocópias e utilizar orelhões para fazer ligações.
Para ela, o estudo e a determinação foram fundamentais para superar aquele período.
“Processos não são números”
Na advocacia previdenciária, Tallyta afirma ter encontrado uma área diretamente relacionada à subsistência de pessoas. Segundo ela, a atuação envolve benefícios destinados a trabalhadores rurais, idosos e pessoas com deficiência, entre outros segurados.
A experiência também trouxe histórias que ultrapassaram a relação tradicional entre advogado e cliente. Entre os episódios lembrados na entrevista está o de uma família do interior que, após a obtenção de uma aposentadoria, ofereceu um animal como forma de agradecimento pelo trabalho realizado.
No escritório, que atualmente conta com 16 pessoas, ela diz procurar transmitir à equipe uma ideia central: os processos representam pessoas que dependem da prestação jurisdicional.
Experiência na AAPREV
A atuação institucional ocupa outro capítulo importante da trajetória da candidata.
Tallyta participa da AAPREV desde a fundação da entidade, em 2017. Ao longo dos anos, passou por diferentes funções até chegar à presidência, cargo que exerce pelo terceiro mandato consecutivo.
Entre as iniciativas destacadas por ela está o processo de interiorização das atividades da associação, com cursos e professores levados a municípios como Petrolina, Salgueiro, Serra Talhada, Ouricuri, Timbaúba e Garanhuns.
A entidade também passou a promover congressos, cursos de pós-graduação presenciais e iniciativas voltadas à atuação prática da advocacia previdenciária. Tallyta afirma que a associação se consolidou como referência nacional na área.
Na entrevista, ela afirma que pretende encerrar seu ciclo à frente da AAPREV para se dedicar à nova etapa profissional. A ideia, segundo Tallyta, é acompanhar o trabalho da entidade posteriormente como integrante da plateia, independentemente do resultado da eleição para o Quinto.
Advocacia antes da magistratura
A candidatura ao Quinto Constitucional, segundo Tallyta, representa uma mudança na forma de servir à sociedade, à Justiça e à própria advocacia.
Ela destaca que a experiência adquirida ao longo da carreira permite ao advogado que chega ao Tribunal pelo Quinto levar para a magistratura uma perspectiva diferente daquela construída exclusivamente dentro da carreira judicial.
Para Tallyta, conhecer a rotina dos escritórios e as dificuldades enfrentadas pelos profissionais ajuda a compreender também a realidade das partes que estão por trás dos processos.
A candidata afirma ainda que sua experiência profissional não se restringe ao Direito Previdenciário. Ao longo da carreira, atuou também em áreas como Direito Civil e Direito do Trabalho e teve contato com processos em diferentes regiões de Pernambuco.
Essa vivência no interior é apontada por ela como um dos elementos que considera importantes para representar a advocacia no Tribunal.
Morosidade e acesso aos magistrados
Entre os principais problemas enfrentados pela advocacia, Tallyta aponta a morosidade da Justiça.
Na avaliação apresentada durante a entrevista, a demora na tramitação dos processos não prejudica apenas os advogados, mas também os cidadãos que aguardam uma resposta judicial. Ela chama atenção ainda para o caráter alimentar dos honorários advocatícios.
Outro ponto levantado é o acesso dos advogados aos órgãos do Judiciário. Tallyta cita como exemplo dificuldades relacionadas ao atendimento presencial na Diretoria Cível e defende que os mecanismos digitais sejam mantidos, mas sem eliminar completamente as possibilidades de atendimento presencial.
Na visão dela, o modelo virtual atende melhor algumas regiões do Estado do que outras, especialmente quando consideradas as diferenças entre Capital, Agreste e Sertão.
Humanização sem abrir mão da técnica
A candidata também associa a ideia de humanização da Justiça à capacidade de enxergar, além do processo eletrônico, a pessoa envolvida naquela demanda.
Tallyta ressalta que humanizar a prestação jurisdicional não significa abandonar a técnica jurídica ou flexibilizar a legislação. Ao contrário, afirma ser uma profissional legalista e defende a aplicação da Constituição, das leis e dos regulamentos.
Para ela, a humanização está relacionada à forma como a Justiça recebe e trata as pessoas, buscando uma prestação jurisdicional que combine sensibilidade, rapidez e qualidade.
Prerrogativas e portas abertas
Questionada sobre o compromisso que assumiria caso fosse escolhida para o TJPE, Tallyta evita apresentar promessas além daquelas que considera inerentes ao exercício da magistratura.
Ela afirma que seu compromisso seria cumprir a Constituição e as leis, respeitar as prerrogativas da advocacia e manter abertura para o diálogo com os profissionais.
Entre os pontos destacados estão o livre acesso dos advogados aos magistrados, o direito de serem recebidos e o respeito à sustentação oral.
Do Sertão para a disputa pelo TJPE
Apesar de construir a carreira profissional no Recife, Tallyta mantém uma relação próxima com Salgueiro e com o Sertão. Na entrevista, ela relaciona essa origem a valores como receptividade e identidade cultural e destaca elementos da culinária sertaneja.
A ligação com a região também aparece na própria trajetória profissional e na atuação da AAPREV, que levou atividades de formação para diferentes municípios pernambucanos.
Para a candidata, essa experiência acumulada entre Capital e interior é parte da contribuição que pretende levar para a disputa pelo Quinto Constitucional.
Ao falar sobre a formação dos novos advogados, Tallyta deixa uma recomendação: estudar continuamente e buscar conhecimento em fontes confiáveis. Ela também chama atenção para a necessidade de avaliar a trajetória de quem produz conteúdo jurídico nas redes sociais antes de tomar suas informações como referência.
A candidatura ao Quinto Constitucional representa, assim, uma nova etapa de uma trajetória construída entre a advocacia previdenciária, a docência e a atuação institucional. Agora, Tallyta Bione coloca essa experiência à disposição da disputa por uma cadeira destinada à advocacia no Tribunal de Justiça de Pernambuco.
O Quinto Constitucional é o mecanismo previsto na Constituição Federal que reserva um quinto das vagas dos Tribunais de Justiça, Tribunais Regionais Federais e Tribunais do Trabalho a integrantes da advocacia e do Ministério Público. No caso do TJPE, a vaga destinada à advocacia passa por um processo em três etapas: a OAB-PE forma uma lista com seis candidatos, o Tribunal de Justiça reduz a relação para três nomes e, por fim, a lista tríplice é encaminhada à governadora de Pernambuco, responsável pela escolha do novo desembargador. Em 2026, a votação da advocacia pernambucana para a formação da lista sêxtupla está marcada para 6 de outubro.
Foto: reprodução/Instagram
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