Episódio aborda representatividade feminina, Procuradoria da Mulher e combate à violência de gênero

Foi ao ar na última quinta-feira (9) o episódio 51 do podcast “Causos & Causas”, exibido pela Ello TV, que teve como tema a representatividade, a força e o papel transformador das mulheres no sistema de justiça. A convidada foi a advogada Vitória Passos, bacharel em Direito pela FASP, em Afogados da Ingazeira, e pós-graduanda em Direito do Trabalho e Previdenciário pela UNIFIP, em Patos (PB).
No episódio, a advogada contou sua trajetória até a advocacia, que inicialmente não era seu “plano A”. Ela relatou que a escolha pela carreira se consolidou nas práticas jurídicas da faculdade, quando pôde ver “a aplicação da lei na realidade prática” e perceber a possibilidade de exercer um “papel transformador para as pessoas”, momento em que diz ter encontrado sua missão profissional.
Vitória atua em São José do Egito como advogada da Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal e é a atual presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB no município. Aos 23 anos, afirmou que o principal desafio ao ocupar espaços de poder tradicionalmente masculinos foi uma insegurança interna relacionada ao fato de ser mulher e jovem, ressaltando que a recepção dos colegas da advocacia foi acolhedora.
A advogada defendeu que o olhar feminino contribui para “humanizar” o processo jurídico, com uma escuta mais sensível e acolhedora, especialmente em casos de mulheres em situação de vulnerabilidade. Segundo ela, muitas demandas exigem uma escuta diferenciada, e o papel da mulher advogada é justamente acolher e orientar juridicamente quem busca ajuda.
Como presidente da Comissão da Mulher Advogada, Vitória destacou como pauta central a ampliação dos “espaços de fala e de voz” para as profissionais. Ela citou o projeto “ESA em Loco”, realizado na subseccional no mês de março, com várias capacitações ministradas exclusivamente por mulheres palestrantes, como forma de enfatizar a representatividade feminina tanto na classe quanto perante a sociedade.
Na Procuradoria da Mulher da Câmara, a advogada explicou que o órgão atua no acolhimento de mulheres que buscam informações jurídicas ou relatam violências sofridas. O trabalho inclui ouvir os relatos, elaborar relatórios, encaminhar os casos aos órgãos competentes e acompanhar o desenrolar dos processos. A equipe também realiza ações de conscientização em escolas e dentro da própria Câmara, abordando o que é violência doméstica, como identificar sinais e como denunciar. Ela ressaltou a importância de tratar o tema no ambiente escolar, por ser espaço de formação de novos pensamentos.
Questionada sobre a crescente onda de feminicídios e o fenômeno dos chamados “red pills”, Vitória avaliou que ainda persiste uma visão de que a mulher é “propriedade do homem”, o que contribui para a escalada da violência quando há tentativa de rompimento do relacionamento. Ela mencionou os “ciclos da violência” — verbal, física e psicológica — e destacou a gravidade da violência psicológica, que muitas vezes impede a vítima de romper o vínculo. Relatou ter visto recentemente o caso de uma mulher morta após um relacionamento de 10 anos, deixando uma filha desamparada, como exemplo da gravidade do problema.
Ao relacionar sua especialização em Direito do Trabalho e Previdenciário com a atuação na Procuradoria, Vitória apontou que benefícios previdenciários, aposentadorias e salário-maternidade podem contribuir para a independência financeira das mulheres atendidas. Segundo ela, muitas permanecem em relações abusivas por dependência econômica, e a violência patrimonial repercute em outras áreas da vida.
No campo da sensibilização de jovens, a advogada relatou uma dinâmica realizada em escola com estudantes do sexo masculino, na qual foi montada uma “teia” de barbante representando vozes de mulheres em situação de violência. A equipe da Procuradoria cortou a teia para simbolizar o acolhimento e a tentativa de mitigar o sofrimento. Ela observou que muitos jovens acreditam que a violência contra a mulher é algo do passado, e que o trabalho busca mostrar que o problema ainda é atual, com uso de índices de feminicídio e exemplos da realidade dos tribunais.
Vitória também comentou a decisão do Supremo Tribunal Federal que equiparou a misoginia ao crime de racismo, classificando-a como importante por tratar a conduta como crime inafiançável e imprescritível. Ressaltou, porém, que os efeitos dependem da aplicação efetiva na prática jurídica. Sobre a antiga tese da “legítima defesa da honra”, ela avaliou que se trata de uma construção cultural ligada ao chamado “crime de honra”, considerada inadmissível e contrária aos direitos humanos, e afirmou que a desconstrução dessa cultura ainda está em curso.
Ao final do episódio, dirigida às alunas da FASP prestes a se formar, a advogada afirmou que é preciso acreditar no próprio potencial e não deixar de lutar, apesar dos desafios, avaliando que “o futuro será muito promissor”. Questionada sobre a marca que pretende deixar como presidente da Comissão da Mulher Advogada, afirmou querer mostrar que as mulheres têm voz e força para ocupar “espaços de poder” na política, na educação, na ciência e na advocacia.
Nas perguntas finais em formato de “ping-pong”, Vitória citou a mãe como mulher que a inspira, revelou ser apaixonada por lutas como Muay Thai, escolheu a música “It’s My Life”, do Bon Jovi, como canção que lhe dá coragem, indicou o Japão como viagem dos sonhos e citou o pastel de frango com o avô, em São José do Egito, como sabor de infância. Ao definir o que é ser advogada, respondeu que é “dar voz às pessoas que não conseguem falar por si sós”.
Acompanhe o eísódio na íntegra logo abaixo:


