Procedimentos buscam garantir transparência e rastreabilidade na aplicação dos recursos, cumprindo decisão do STF. Fiscalização mira especialmente as emendas para 2026.
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) deu início a uma ação coordenada para fiscalizar a transparência e a rastreabilidade das emendas parlamentares em dois municípios pernambucanos: Sertânia, no Sertão, e Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. A medida atende a uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) e visa coibir possíveis irregularidades na destinação e execução desses recursos públicos.
Foram instaurados dois Procedimentos Administrativos de acompanhamento de políticas públicas, um em cada cidade. Em Sertânia, o procedimento (n. 02276.000.174/2025) foi aberto pela 1ª Promotoria de Justiça local. No Cabo de Santo Agostinho, a 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania é a responsável pelo processo (n. 02316.000.082/2025).
Fundamento: Decisão do STF na ADPF 854
A ação do MPPE está diretamente ligada às decisões do ministro Flávio Dino, relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n.º 854 no STF. O tribunal estabeleceu que a execução de emendas parlamentares estaduais e municipais deve observar os mesmos padrões de transparência e rastreabilidade válidos para as federais, conforme previsto no artigo 163-A da Constituição.
Um ponto crucial da decisão determina que a execução orçamentária das emendas aprovadas por vereadores para o exercício de 2026 só poderá começar após os municípios demonstrarem aos seus Tribunais de Contas o cumprimento dessas regras. O STF alertou que é “inaceitável” que práticas consideradas irregulares no âmbito federal sejam reproduzidas em estados e municípios.
O que será fiscalizado
Os procedimentos têm por objeto formalizar a fiscalização da adequação dos processos orçamentários e da execução financeira das emendas parlamentares federais, estaduais e municipais aos parâmetros fixados pelo STF. O foco será especialmente nas emendas dos exercícios de 2024, 2025 e 2026.
As portarias de instauração listam exigências mínimas que os municípios devem cumprir, baseadas na interpretação do MPPE sobre a decisão do Supremo:
- Plataforma de Transparência: Os municípios precisam ter e implementar uma plataforma digital unificada específica para emendas parlamentares, que replique as funcionalidades do sistema federal “Transferegov.br“, mostrando origem, destino, objeto e andamento da execução.
- Rastreabilidade Financeira: Deve ser garantido um sistema baseado em três pilares: conta bancária específica por emenda, vedação de saques em espécie (“na boca do caixa”) que dificultem a identificação do beneficiário final, e uso de códigos contábeis que associem cada despesa à emenda de origem.
- Análise Técnica Prévia: Toda emenda, antes de executada, deve passar por análise técnica do Poder Executivo e ter um Plano de Trabalho robusto, atestando sua compatibilidade com o planejamento municipal (PPA e LDO).
- Adequação Legislativa: O processo de adequação envolve também o Poder Legislativo, podendo exigir mudanças na Lei Orgânica Municipal, na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e no Regimento Interno da Câmara de Vereadores.
Contexto e justificativa
As portarias citam que têm sido verificadas, em diversos municípios, possíveis irregularidades na destinação e execução de recursos de emendas, especialmente pela falta de fiscalização e prestação de contas pelas entidades beneficiárias. O MPPE argumenta que a falta de transparência potencializa riscos de desvio de finalidade, favorecimento pessoal e malversação do dinheiro público.
A iniciativa faz parte de uma mobilização nacional dos Ministérios Públicos estaduais, atendendo a um ofício-circular do próprio STF. O MPPE contou com subsídios técnicos do seu Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Defesa do Patrimônio Público (CAOPPTS).
Com os procedimentos instaurados, as promotorias estão autorizadas a realizar todas as diligências necessárias, como requisitar documentos, expedir notificações e promover inspeções, para assegurar que os recursos das emendas cheguem de forma transparente e rastreável à população.
Foto: ilustrativa – Freepik


