Em análise sobre influenciadores “tradicionalistas”, Alexandre Zamboni traça paralelos históricos com regimes totalitários e aponta engrenagens das redes sociais
O avanço de perfis voltados ao chamado “estilo de vida tradicional” nas redes sociais tem acendido um alerta que vai além do debate comportamental. Em um vídeo analítico publicado em suas redes, o professor e mestre em Direito Penal, Alexandre Zamboni, destrinchou o fenômeno e apontou que, por trás de imagens visualmente atraentes e produções em tons pastéis, esconde-se o que chamou de “nostalgia autoritária” — uma estratégia de comunicação que busca normalizar o retrocesso de direitos históricos das mulheres.
No registro, que ultrapassa a marca de três minutos desafiando o formato de consumo rápido imposto pelas plataformas, Zamboni reconhece o risco de sofrer ataques virtuais ou boicote do próprio algoritmo por expor a engrenagem desse ecossistema. Contudo, reforça que o silêncio diante de discursos que flertam com o absurdo não é uma opção viável.
Do “choque” à normalização estética
A reflexão do jurista parte de postagens recentes de influenciadores digitais com grande alcance. Entre os exemplos citados estão discursos contrários à distribuição gratuita de absorventes, questionamentos ao direito ao voto feminino e a romantização de uma divisão doméstica extrema, em que o homem se orgulha de não saber tarefas básicas de cuidado com os próprios filhos, limitando seu papel a “comprar a comida”. Outras publicações textuais diretas afirmam que o feminismo “destrói a vida das mulheres” ou que mulheres solteiras e jornalistas “votam muito mal”.
Para o professor, o perigo reside justamente na embalagem. Longe de ser um movimento inocente de retorno ao passado, o uso de uma “estética bonitinha” funciona como método para desarmar o senso crítico do espectador, inserindo ideias discriminatórias de forma sutil no cotidiano dos usuários.
Os precedentes históricos: Goebbels e Riefenstahl
Para embasar o argumento de que a beleza visual sempre foi uma ferramenta de regimes opressores, Zamboni recorre à história do século XX e cita duas figuras centrais da Alemanha nazista:
- Joseph Goebbels: O chefe da propaganda do regime afirmava que a estratégia deixa de funcionar no instante em que o público percebe que se trata de propaganda. A mensagem, portanto, precisa parecer invisível.
- Leni Riefenstahl: A cineasta utilizou enquadramentos, fotografia e uma estética técnica revolucionária para embalar e glamorizar o totalitarismo, provando que a forma visual refinada era o método, e não um mero acidente.
Zamboni traça um paralelo direto entre o discurso dos novos influenciadores e o lema alemão “Kinder, Küche, Kirche” (Filhos, Cozinha, Igreja), herdado do período imperial e oficializado pelo nazismo para restringir rigidamente o papel da mulher na sociedade — época em que juízas foram destituídas de seus cargos e o acesso feminino às universidades foi limitado a 10%.
O especialista em Direito Penal também relembrou a Espanha sob a ditadura de Francisco Franco, onde vigorou a “licença marital” até 1975. Sob essa legislação, as mulheres eram proibidas de trabalhar, assinar contratos, abrir contas bancárias ou administrar os próprios bens sem a autorização expressa do marido.
A engenharia do ressentimento nas plataformas
A grande virada do cenário atual em relação aos regimes do passado, segundo o professor, está no poder de difusão técnica. Se no século XX a propagação dessas ideias dependia de palanques, jornais impressos, igrejas ou estruturas estatais complexas, hoje toda a carga ideológica é sintetizada em vídeos curtos na tela do celular.
O criador de conteúdo digital contemporâneo não necessita formular teorias sociológicas robustas. A dinâmica baseia-se em repetir narrativas simplistas que alimentam o ressentimento, como “os homens foram humilhados”, “a mulher livre é infeliz” ou “a submissão traz paz”.
A partir daí, a engenharia dos algoritmos — desenhada para reter a atenção por meio do conflito e da validação de bolhas — faz o restante do trabalho de distribuição. Ao transformar o ressentimento em hábito de consumo e recomendação em massa, as redes sociais acabam criando comunidades digitais engajadas em torno da segregação de gênero, dando contornos tecnológicos a preconceitos históricos.


