“O nomadismo de servidores se associa ao crime organizado”, diz presidente do STJ sobre investigação de venda de sentenças

Herman Benjamin, em entrevista ao Poder360, revela que prática de servidores trocarem de gabinete, antes vista como normal, agora é foco de revisão de segurança. Ministro detalha força-tarefa para reduzir estoque de processos e defende remuneração alta para atrair os melhores juízes.

A investigação sobre um esquema de venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ) levou a corte a um duro “choque de realidade” e expôs uma vulnerabilidade antes ignorada: o nomadismo de servidores entre gabinetes de ministros. Em entrevista ao Poder360 nesta quinta-feira (4), o presidente do tribunal, ministro Herman Benjamin, afirmou que a rotatividade, antes vista como natural, agora é analisada como uma possível porta de entrada para o crime organizado.

“É exatamente esse nomadismo que se associa ao crime organizado. Ah, o processo importante caiu no gabinete da ministra ou do ministro X ou Y. Então, você vai sair e vai para este outro gabinete. Não estou dizendo que isso foi constatado, mas é uma possibilidade. E evidentemente temos que enfrentar de alguma maneira as possibilidades”, declarou Benjamin.

O ministro, que completou um ano e meio à frente do STJ, admitiu que o escândalo afetou a credibilidade da instituição e exigiu uma revisão profunda dos protocolos de segurança e confidencialidade. “Até este episódio, vivíamos num sentimento de Shangri-lá. De que éramos diferentes dos outros”, reconheceu.

Força-tarefa contra o estoque e ‘Justiça de classe’

Além do combate à corrupção interna, Benjamin detalhou a principal frente de sua gestão para agilizar o julgamento: uma força-tarefa inédita com juízes convocados de todo o país que já reduziu em mais de 60% o acervo histórico da seção criminal. O modelo, que será expandido, visa acabar com gabinetes que chegavam a acumular 15 mil processos.

Sobre o funcionamento da Justiça, o presidente do STJ foi crítico ao diagnosticar um “sistema de direito penal que é de classe”. “Isso acaba transformando o Poder Judiciário em uma Justiça de classe. Em outras palavras, uma Justiça para os ricos e poderosos e uma outra Justiça dura, muitas vezes, quase medieval para o resto todo”, afirmou.

Salário alto sim, ‘penduricalhos’ não

Questionado sobre os altos vencimentos do Judiciário, Herman Benjamin defendeu a necessidade de uma remuneração robusta para atrair os melhores talentos, mas fez uma distinção clara entre salário e “penduricalhos” – benefícios extras que distorcem a transparência.

“Como brasileiro, quero que os juízes brasileiros venham das melhores faculdades e que, no recrutamento, sejamos concorrentes dos maiores escritórios brasileiros”, argumentou. “Se queremos remunerar e concorrer com os melhores e maiores escritórios do Brasil, então o padrão salarial vai ser este. Porque vivemos numa sociedade capitalista em que há concorrência no mercado de trabalho.”

A entrevista também abordou a COP30, chamada por ele de “COP do milagre” por ter sido realizada na Amazônia em um cenário global desfavorável, e sua proximidade com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, a quem considera um “modelo”. Lei aqui a íntegra da entrevista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima
Verified by MonsterInsights