Por Inácio Feitosa*
Acompanhei de perto o último sete de setembro numa cidade do interior. Pela manhã, a avenida foi tomada pelo desfile: bandas, estandartes, professores à frente de suas turmas. Fiquei por ali até o fim da tarde, e o retrato que ficou não foi o da marcha. Foi o da avenida depois dela: copos, sacos, embalagens e papéis de ponta a ponta, esperando que alguém — sempre outro alguém — viesse recolher.
Seria fácil demais reduzir aquela imagem a um lamento sobre falta de valores. Ela expõe uma cadeia de responsabilidades que não se fechou: a orientação que a escola não teve tempo de dar, a conversa que não se deu em casa e, sobretudo, a organização que o poder público municipal não fez. As duas primeiras são as mais fáceis de apontar; a terceira é a menos nomeada e a que mudaria o resultado já no ano seguinte. E a cena se repete em capitais e vilarejos.
Lembrei ali da torcida japonesa recolhendo o próprio lixo nas arquibancadas. O gesto não vem de superioridade cultural: vem de desenho institucional. Nas escolas japonesas, os alunos limpam diariamente salas e áreas comuns — o sōji, tratado como conteúdo e não como substituição de trabalhador — e a formação moral é disciplina obrigatória desde 2018. O que o mundo assiste no estádio foi ensinado e financiado ao longo de doze anos de escola.
No papel, o Brasil já decidiu isso. A Lei de Diretrizes e Bases coloca o preparo para a cidadania como finalidade da educação; a Lei nº 9.795/1999 torna a educação ambiental componente essencial e permanente do ensino; e a BNCC prevê agir com consciência socioambiental. Falta condição concreta de execução. E vale dizer: a professora que conduz cem crianças sob o sol, sem apoio e com salário incompatível com a tarefa, não é a culpada desta história — é o último elo de uma corrente que chegou frouxa até ali.
Porque um desfile cívico não é evento espontâneo: é convocado e conduzido pelo poder público municipal. Quem chama a cidade para a avenida responde pela avenida, e não só moralmente. A Lei nº 12.305/2010 incumbe aos municípios a gestão integrada dos resíduos gerados em seus territórios e responsabiliza o titular do serviço de limpeza urbana por organizá-lo e prestá-lo. O dever de casa era o básico de qualquer evento planejado: coletores no percurso, equipe posicionada, orientação prévia às escolas, uma linha no plano dizendo quem recolhe e como. Falo como quem já esteve dos dois lados do balcão — fui secretário municipal de Educação Profissional e Juventude no Recife e conselheiro do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco: nada disso exige emenda parlamentar nem obra, exige planejamento. Cidade suja raramente é sinônimo de cidade pobre; é sinal de gestão que não olha para o detalhe.
Dirão que a prefeitura varre no dia seguinte, e varre. Mas não se trata de poupar quem limpa: trata-se de não tratar o trabalho alheio como recurso gratuito e infinito. Todo desfile é currículo e ensina o que ninguém planejou ensinar: quando a avenida fica coberta de restos diante de quem discursou no palanque, a lição é que o cuidado com o bem comum vale só para a fotografia. E o pequeno, somado, vira o grande: o Brasil gerou em 2024 mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, e 40,3% tiveram destinação inadequada, com quase três mil lixões ainda em operação.
Fica a proposta para o próximo ano, em três níveis e um gesto: que a prefeitura inclua no planejamento do sete de setembro o recolhimento final, com coletores e equipe; que a rede de ensino oriente cada escola a deixar limpo o trecho que ocupou, como atividade pedagógica; e que a família siga fazendo aquilo que nenhuma política substitui.
Porque pátria não é o que se canta uma vez por ano. É o que se cuida nos outros trezentos e sessenta e quatro dias. O primeiro compromisso do cidadão não está no hino, está no destino que ele dá ao próprio lixo. E o primeiro compromisso de quem governa é tornar esse gesto possível, esperado e cobrado. Quando os dois entendem isso ao mesmo tempo, o dever de casa está feito — e aí sim houve desfile.
*Inácio Feitosa é advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor
_inaciofeitosa@hotmail.com


