Em entrevista ao Causos & Causas, advogado e professor Graciliano Cintra debate limites da advocacia e desafios da profissão

Conselheiro da OAB-PE aborda prerrogativas sobre honorários, atuação no direito das famílias e a relação entre arte e jurisprudência

Advogado militante, professor, conselheiro estadual da OAB Pernambuco e presidente da Comissão de Direito e Arte do IBDFAM-PE, Graciliano Cintra acredita que o exercício do Direito vai muito além do conhecimento técnico. Em entrevista ao podcast Causos & Causas, ele ressaltou que a formação de um bom profissional passa necessariamente pela compreensão da vida, das relações humanas e da realidade social.

Segundo o jurista, a arte e a literatura desempenham papel fundamental nesse processo. Filho de uma família que sempre valorizou a leitura e a música, Graciliano revelou que a poesia foi uma de suas primeiras formas de expressão artística e que mantém o hábito de escrever desde a juventude.

“A arte não imita a vida; ela replica a vida, assim como a vida replica a arte”, afirmou. Para ele, a convivência com a literatura, a música e outras manifestações culturais amplia a capacidade de compreensão dos conflitos humanos, especialmente para quem atua em áreas sensíveis, como o Direito de Família.

Durante a entrevista, o advogado demonstrou preocupação com a formação de operadores do Direito que ingressam muito jovens na magistratura sem vivenciar experiências que permitam compreender a realidade das pessoas que julgarão. Na sua avaliação, conhecer as dores, os desafios e os contextos sociais é essencial para promover decisões mais justas e eficazes.

Advocacia exige maturidade e equilíbrio

Ao relembrar o início da carreira, Graciliano destacou que a advocacia é uma profissão cuja aprendizagem ocorre, sobretudo, na prática. Segundo ele, o conhecimento adquirido na faculdade é apenas uma parte da formação necessária para lidar com os desafios cotidianos dos clientes e dos processos.

O professor observou que o exercício profissional exige maturidade para compreender que nem sempre a melhor solução está dentro de uma ação judicial. Em muitos casos, explicou, mediações, negociações e acordos podem gerar resultados mais efetivos para a pacificação dos conflitos.

Ele também alertou para a necessidade de estabelecer limites na relação entre advogado e cliente. Ao relatar experiências do início da carreira, contou que precisou aprender a preservar momentos de descanso e vida pessoal, reforçando que a advocacia é uma atividade de meio e não uma garantia de resultados.

Defesa das prerrogativas e valorização dos honorários

Na condição de conselheiro estadual da OAB Pernambuco e subprocurador da Procuradoria de Honorários, Graciliano destacou a atuação da entidade na defesa das prerrogativas profissionais e da remuneração da advocacia.

Entre os avanços recentes, citou a consolidação do entendimento jurídico que dispensa o pagamento de custas processuais em ações de cobrança de honorários advocatícios. Para ele, a medida representa uma conquista importante, já que os honorários possuem natureza alimentar e constituem o sustento dos profissionais.

O advogado também apontou que a OAB tem atuado em casos de violações às prerrogativas da classe, promovendo medidas institucionais para garantir o respeito ao exercício da profissão.

Empatia sem perder a objetividade

Com atuação concentrada em áreas como Direito das Famílias, Sucessões e Direito à Saúde, Graciliano afirmou que a empatia é indispensável para compreender o sofrimento dos clientes, mas não pode comprometer a objetividade técnica necessária à atuação profissional.

Ele comparou o papel do advogado ao de um médico: ambos precisam compreender a dor de quem buscam ajudar, sem permitir que a emoção comprometa a tomada de decisões.

“O advogado deve entender o problema, mas não se apaixonar pela causa a ponto de perder a capacidade de analisar os fatos com clareza”, observou.

Para o professor, uma das habilidades mais importantes para quem deseja atuar no Direito das Famílias é justamente a capacidade de compreender a complexidade das relações humanas. Nesse sentido, ele defende uma formação multidisciplinar, com diálogo constante entre Direito, Psicologia, Sociologia e Arte.

Estudo permanente diante das transformações do Direito

Ao comentar as mudanças em curso na legislação civil brasileira, Graciliano ressaltou que o estudo contínuo se tornou uma exigência para os profissionais da área. Segundo ele, debates sobre sucessões, novas configurações familiares e possíveis alterações no Código Civil exigem atualização permanente.

Para o professor, o Direito acompanha as transformações da sociedade e, por isso, os operadores jurídicos precisam estar preparados para interpretar novos cenários e responder a demandas cada vez mais complexas.

Ao final da entrevista, além de revelar sua admiração por autores como Gabriel García Márquez e por artistas como Chico Buarque, Graciliano resumiu seu maior desejo pessoal: acompanhar o crescimento da filha com saúde, alegria e felicidade — uma demonstração de que, para além dos títulos e funções que acumula, a família continua sendo seu principal projeto de vida.

Assista abaixo a íntegra do episódio:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima
Verified by MonsterInsights