Candidata afirma ter sido alvo de perfil falso com ofensas à sua fé e questionamentos ao seu currículo após colocar nome à disposição para vaga de desembargadora
A advogada, jurista e procuradora federal Chiara Ramos denunciou ter sido vítima do crime de racismo religioso e de difamação por meio das redes sociais. As declarações foram prestadas pela própria jurista em vídeo publicado em seu perfil oficial no Instagram nesta sexta-feira (14). No relato, a candidata a uma vaga de desembargadora no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) pelo Quinto Constitucional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) afirmou que um perfil falso foi criado na plataforma para atacar sua trajetória acadêmica e sua convicção religiosa.
Segundo as informações divulgadas no pronunciamento, o perfil falso ingressou em diversas páginas que abordavam sua trajetória para propagar alegações inverídicas sobre seu currículo, além de ter formulado denúncias nos canais oficiais da Advocacia-Geral da União (AGU). Posteriormente, a mesma conta passou a proferir ofensas direcionadas à sua fé e religiosidade de matriz africana.
Ataques à qualificação acadêmica e aos canais oficiais
Conforme o relato feito pela jurista, as investidas anônimas buscaram inicialmente desacreditar sua qualificação profissional, questionando o andamento de sua formação acadêmica. A advogada esclareceu publicamente a situação do seu doutorado:
“Criou-se um perfil falso, ingressou em muitas páginas que falam um pouco sobre a minha trajetória, que fala sobre o doutorado em Ciência Político-Jurídica na Universidade de Lisboa, que está faltando apenas a defesa da tese para conclusão. Estou devidamente matriculada, esperando a universidade fazer essa marcação da defesa da tese em razão das suas burocracias, porque o meu orientador, ele se afastou da universidade.”
A pré-candidata destacou que as acusações também foram enviadas à AGU com o objetivo de instaurar processo administrativo contra ela, ressaltando que a situação já foi devidamente esclarecida e que o trâmite interno no órgão encontra-se em situação regular.
Racismo religioso e adoção de medidas judiciais
Além dos questionamentos funcionais, a procuradora informou que o perfil passou a emitir ofensas diretas quanto ao seu pertencimento religioso, afirmando que a advogada não teria fé ou que teria entregado a alma aos orixás. Diante do episódio, a jurista confirmou a formalização de interpelações jurídicas sobre o caso.
“Obviamente, como jurista, todas as medidas judiciais a serem tomadas já estão sendo tomadas. A denúncia pelo crime de difamação e racismo já foram feitas.”
Ao pontuar as dificuldades do pleito, a advogada vinculou os ataques à sua condição de mulher negra e praticante de religião de matriz africana ao buscar ocupar espaços de decisão no Poder Judiciário.
Escolha pelo movimento da advocacia negra
Durante o pronunciamento, Chiara Ramos explicou os motivos que a levaram a aceitar a indicação para disputar a vaga no Tribunal de Justiça. A procuradora preside a organização Abayomi Juristas Negras, que possui entre suas missões institucionais o combate ao racismo institucional e religioso.
A indicação do seu nome ocorreu após a decisão pessoal da advogada Ana Paula Cordeiro de não disputar novamente o pleito, em virtude das violências sofridas em eleição anterior do Quinto Constitucional. Diante da insistência e do apoio do movimento da advocacia negra pernambucana, a jurista decidiu assumir a pré-candidatura.
“Colocar uma mulher negra com consciência racial, colocar uma mulher negra de axé dentro desses espaços de poder significa ser contrasistema, contracolonial, significa dar possibilidades de diversas formas de interpretação, de diversas maneiras de interpretar e de visualizar as questões jurídicas que devem ser resolvidas e decididas.”
Foto: Armando Artoni
Veja abaixo o vídeo publicado por Chiara:


